As tensões entre a Rússia e países europeus aumentaram após a Alemanha atribuir a Moscou um ataque com drone carregado de explosivos no aeroporto de Leipzig/Halle. O ministro do Interior alemão, Alexander Dobrindt, afirmou que o episódio seguia o padrão de operações híbridas russas, que combinam táticas militares e não militares sem conflito aberto.
Moscou negou envolvimento no caso e classificou as acusações alemãs como infundadas. Depois do episódio, Alemanha e Rússia fecharam centros culturais uma da outra, incluindo o consulado russo em Bonn. O embaixador dos Estados Unidos na Otan, Matthew Whitaker, chamou o incidente de uma das ações híbridas mais preocupantes já vistas na Europa.
O presidente francês, Emmanuel Macron, disse que a ameaça se intensificou e ordenou a elaboração de um plano para proteger infraestruturas críticas, instalações da indústria de defesa e estruturas de tecnologia contra drones e ataques cibernéticos. A declaração foi feita em Paris, em uma coletiva no Palácio do Eliseu, nesta sexta-feira (18/9).
Macron também anunciou que a França convocaria uma reunião do G7 para discutir energia e os estoques de gás junto à Comissão Europeia. A Rússia, por sua vez, reiterou ao Reino Unido que instalações militares britânicas na Ucrânia usadas para atacar o território russo seriam alvos legítimos.
Incidentes atribuídos a Moscou
Especialistas relacionam os episódios a um padrão de ações que teria aumentado desde a invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022. Entre os casos mencionados estão incêndios suspeitos em instalações de defesa, sabotagens, ataques cibernéticos, violações do espaço aéreo e danos a ferrovias, cabos submarinos e oleodutos.
No domingo anterior, um drone russo atingiu a locomotiva de um trem de passageiros perto da fronteira entre a Ucrânia e a Polônia. A Ucrânia informou que todos os passageiros haviam sido retirados minutos antes do ataque, em Yahodyn. O episódio ocorreu pouco depois da passagem do ex-primeiro-ministro britânico Boris Johnson e de autoridades europeias de segurança pela mesma linha férrea.
Um estudo do centro Globsec identificou 151 casos de atividade russa contra a Europa entre fevereiro de 2022 e fevereiro de 2026. A lista inclui tentativas de assassinato, incêndios criminosos, sabotagem, vandalismo e distúrbios públicos. O levantamento apontou que o apoio à Ucrânia parece ser o principal fator na escolha dos alvos.
A pesquisadora Emily Ferris, do centro Rusi, afirmou que a frequência e a escala dos ataques cresceram desde 2022. Para o pesquisador Maksym Beznosiuk, da Globsec, o Kremlin busca testar a prontidão da Otan, explorar divisões entre os aliados e criar incerteza.
A Polônia, descrita como pilar logístico da Otan para o abastecimento da Ucrânia, mobilizou até 10 mil soldados após uma explosão em uma linha férrea usada para entregas, em novembro de 2025. Em janeiro, o governo polonês assinou contratos de mais de R$ 21 bilhões para sistemas de defesa contra drones ao longo da fronteira leste.
Desinformação e operações indiretas
Governos europeus também acusam redes ligadas à Rússia de espalhar desinformação por meio de contas falsas em redes sociais, relatórios fabricados e conteúdo gerado por inteligência artificial. Na França, autoridades investigaram operações de influência ligadas a Moscou antes das eleições presidenciais de 2027. Na Alemanha, houve alertas sobre tentativas de minar a confiança nas instituições democráticas antes de votações regionais.
Analistas afirmam que a Rússia passou a recrutar cidadãos de outros países pela internet para contornar medidas europeias de contraespionagem. Em janeiro, autoridades da Lituânia acusaram o serviço de inteligência militar russo GRU de organizar tentativas de incêndio criminoso em 2024 contra uma fábrica que fornece scanners de ondas de rádio ao exército ucraniano. Seis cidadãos foram presos e podem receber até 15 anos de prisão se condenados.
A Globsec informou que 95% dos 172 indivíduos envolvidos em ataques ligados à Rússia na Europa eram cidadãos comuns sem vínculo formal com agências de inteligência russas. Segundo Ferris, esse modelo dificulta a atribuição dos atos ao Kremlin.
A chamada frota paralela russa também passou a ser associada, desde 2024, a incidentes suspeitos envolvendo cabos e oleodutos submarinos, além de atividades de vigilância e drones perto de infraestruturas críticas no Mar Báltico e no Mar do Norte. A Rússia negou as acusações.
Risco de escalada
Beznosiuk defende que a Otan e a União Europeia definam com mais clareza como a sabotagem russa deve ser classificada e combatida. Entre as medidas citadas estão restrições às movimentações diplomáticas, ações contra a frota paralela e mais investimentos em alfabetização midiática antes das eleições.
A Otan e países da União Europeia afirmaram que estão ampliando a cooperação de inteligência, reforçando a proteção de infraestruturas críticas e aumentando sanções contra pessoas, organizações e embarcações ligadas à Rússia.
Os especialistas consideram improvável uma guerra direta entre a Rússia e a Otan, mas esperam que as operações híbridas se intensifiquem. Beznosiuk avalia que Moscou pode aumentar esse tipo de atividade até 2027, com sabotagem, ciberoperações e desinformação.
Os analistas também alertam para uma escalada não intencional. Acidentes, danos a civis e incidentes politicamente sensíveis poderiam provocar uma reação grave. Ferris defende uma comunicação melhor com a Rússia e a retomada do Conselho Otan-Rússia, cuja última reunião ocorreu em janeiro de 2022.









