A falta de tempo foi o principal fator associado a sintomas de depressão e ansiedade entre estudantes de medicina, seguida pelas preocupações com a própria saúde e pelo estresse nos relacionamentos. O resultado faz parte de uma pesquisa que avaliou como o ambiente de aprendizagem e os estressores acadêmicos se relacionam à saúde mental durante a formação.
Realizado por pesquisadores do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental, da USP, o estudo ouviu 1.026 alunos, do primeiro ao sexto ano, entre setembro de 2023 e setembro de 2024. Os participantes eram de 74 faculdades públicas e privadas.
Três perfis de sofrimento
Os pesquisadores identificaram três grupos. O maior deles, com 53,7% da amostra, reunia estudantes que percebiam o ambiente de aprendizagem como menos favorável, relatavam mais estressores acadêmicos e apresentavam sintomas mais intensos. Outros 32,7% ficaram em um grupo intermediário, enquanto 13,6% relataram sintomas mínimos.
No conjunto dos participantes, 66% apresentaram sintomas depressivos de moderados a graves. Sintomas de ansiedade no mesmo nível foram relatados por 50,5%. A proporção de sintomas depressivos ficou acima dos 27,2% estimados em uma revisão internacional, mas a comparação não permite calcular com precisão a diferença entre os grupos, porque os estudos usaram instrumentos, pontos de corte e períodos de coleta diferentes.
A primeira autora, a médica Clarissa Garcia Custódio, afirma que o questionário PHQ-9 rastreia sintomas, mas não confirma um transtorno. “Isso não significa que 66% tenham diagnóstico de transtorno depressivo”, diz. Segundo ela, o diagnóstico depende de avaliação clínica, com análise dos sintomas, da duração, do prejuízo funcional, do contexto e de outros critérios.
Ambiente de aprendizagem
A análise encontrou uma relação entre maior estresse e sintomas mais intensos de depressão e ansiedade. Também indicou que uma avaliação melhor do ambiente de aprendizagem estava associada a sintomas depressivos menos graves. Os resultados, porém, não permitem afirmar que o estresse causou os sintomas ou que um ambiente melhor os reduziu.
Alunos de faculdades privadas avaliaram melhor o ambiente de aprendizagem, especialmente a relação com os professores. Estudantes que entraram por cotas apresentaram níveis mais altos de sintomas depressivos e estresse acadêmico. Depois de considerados o ambiente e o estresse acadêmico, diferenças ligadas a cotas, raça ou tipo de faculdade deixaram de ser estatisticamente significativas.
A participação foi voluntária, o que pode ter atraído pessoas que já se sentiam mal. Os participantes equivaliam a cerca de 0,40% dos 266.507 estudantes de medicina matriculados no Brasil em 2023. A pesquisa não conseguiu quantificar quanto esse possível viés alterou a prevalência.
Uma nova etapa já está em andamento para avaliar a evolução da exposição ao trote universitário e sua relação, ao longo da formação, com a percepção do ambiente de aprendizagem e com desfechos de saúde mental.







