Cartas de Pokémon que antes circulavam entre crianças nos recreios passaram a movimentar valores próximos aos do mercado de arte. Peças antigas e bem preservadas são disputadas por colecionadores, investidores, banqueiros e profissionais do mercado financeiro.
O britânico Jordan Dunne, de 34 anos, deixou o trabalho de analista de dados em um escritório de advocacia em Chester para negociar cartas antigas. Hoje, ele dirige a Big Box Gaming, empresa que procura itens raros em feiras e os vende em transmissões ao vivo pelo eBay.
Nostalgia e valorização
Adam Ireland, chefe global de colecionáveis do eBay, relaciona o avanço à geração que jogou Pokémon nos anos 1990 e 2000. Aos 30 e 40 anos, esse público passou a ter renda para investir em um hobby que antes dependia do dinheiro da mesada.
Pokémon foi o termo mais procurado na categoria de colecionáveis do eBay no primeiro semestre deste ano. Em fevereiro, a casa de leilões Goldin vendeu uma carta Pikachu Illustrator de 1998 por US$ 16,5 milhões, cerca de R$ 84,98 milhões, no maior negócio já registrado no segmento.
A procura cresceu durante a pandemia, perdeu força com a reabertura do mundo e manteve uma rede ativa de comerciantes e compradores. A Pokémon Company relançou, em 2023, a coleção 151, com personagens como Bulbasaur, Snorlax e Charizard. No ano seguinte, lançou uma versão mobile do jogo de cartas. Comerciantes esperam que o aniversário de 30 anos da franquia, no mês que vem, estimule novas compras.
Em agosto, Dunne vendeu três cartas de sua coleção por cerca de £300 mil, aproximadamente R$ 2,09 milhões. Ele havia comprado as peças por metade desse valor um ano antes. Tom Lake relatou a venda de uma carta Mario Pikachu por cerca de £20 mil, perto de R$ 139,4 mil, depois de adquiri-la por £30, ou R$ 209, oito anos atrás.
Escassez e certificação
As cartas mais antigas concentram o maior potencial de valorização. Embora a Pokémon Company ainda produza bilhões de unidades por ano, o volume de impressões de duas décadas atrás é limitado, assim como a quantidade de exemplares preservados em condição quase perfeita.
Oz Kara, cofundador do aplicativo Cardfolio, divide o mercado entre cartas modernas, que podem ser reimpressas, e antigas, cuja oferta é limitada. Certificadoras como a norte-americana PSA avaliam a conservação das peças em uma escala de 1 a 10. Arranhões e falhas no alinhamento da arte podem alterar significativamente os preços.
Entre as cartas Pikachu da coleção Legendary de 2002, somente 35 receberam nota 10 da PSA. Uma delas foi vendida por cerca de £250 mil, ou R$ 1,74 milhão. Uma unidade com nota 9 custou aproximadamente £15 mil, equivalente a R$ 104,5 mil.
A demanda também pressionou as certificadoras. A PSA avaliou mais de 1,3 milhão de cartas somente em agosto, dez vezes o volume do mesmo mês em 2021, conforme a GemRate. A empresa suspendeu temporariamente o recebimento de cartas de menor valor por falta de capacidade. No Reino Unido, a The Grading Club interrompeu novas submissões no mês passado.
Risco de furtos
O aumento do dinheiro envolvido elevou o risco de roubos. Na feira Card Con, em Farnborough, o público chegou a 10 mil visitantes neste ano, o dobro do registrado anteriormente. Compradores usavam maletas protegidas por senhas para guardar dinheiro, enquanto comerciantes evitavam revelar a identidade por medo de assaltos.
No começo deste mês, a loja da Fanatics Collectibles na Regent Street, em Londres, foi invadida, e cartas de alto valor foram levadas. No ano passado, a polícia prendeu um homem em Manchester e encontrou com ele um lote de cartas Pokémon avaliado em cerca de £250 mil, ou R$ 1,74 milhão.








