O Cerrado enfrenta uma combinação de maior pressão climática sobre a água e necessidade de ampliar recursos para adaptar a produção rural. A previsão de um super El Niño eleva o risco de calor intenso, estiagens prolongadas e incêndios no Brasil Central.
O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico e pode alterar os padrões de chuva e temperatura. A expectativa é de mais de 90% de probabilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte e de 69% de chance de ficar entre os episódios mais intensos já registrados entre outubro e dezembro.
O bioma responde por cerca de 60% da produção agropecuária brasileira e celebra seu dia em 11 de setembro. O cenário climático aumenta a preocupação com a disponibilidade de água, a conservação da vegetação nativa e a adaptação da produção agrícola.
Pressão sobre os recursos hídricos
Um estudo da The Nature Conservancy (TNC), com seis décadas de dados hidrológicos da Bacia do Araguaia, identificou aumento das temperaturas, redução do volume e da frequência das chuvas, prolongamento da estação seca e queda na vazão de rios importantes.
Os rios Javaés e Rio Vermelho apresentaram tendência de redução das vazões em praticamente todos os meses do ano. No Rio Lontra, a queda foi registrada entre janeiro e novembro.
Na Bacia do Rio Formoso, no Tocantins, a pressão sobre os recursos hídricos provocou a interrupção do fluxo do rio e levou à judicialização da disputa pelo uso da água. A região produz arroz, soja e milho.
Ao mesmo tempo, investidores demonstram interesse por modelos que associem produção agrícola, conservação ambiental e adaptação climática. O relatório State of Private Investment in Nature 2026, produzido pela TNC e pela Forest Trends, aponta que o capital anual destinado a soluções baseadas na natureza aumentou cinco vezes em uma década: passou de US$ 2,8 bilhões em 2016 para mais de US$ 14 bilhões em 2025.
No período, foram comprometidos US$ 61,4 bilhões para esse mercado. Desse total, US$ 32,8 bilhões foram destinados à agricultura sustentável.
Financiamento para adaptação
No Brasil, a iniciativa Inovação Financeira para Amazônia, Cerrado e Chaco (IFACC) reúne empresas, bancos e investidores para financiar uma produção agropecuária sem desmatamento e conversão de vegetação nativa.
Desde 2021, as organizações participantes desembolsaram US$ 954 milhões para financiar a transição produtiva. Aproximadamente 98% desse montante foi aplicado no Cerrado, com apoio a 668 mil hectares de produção sustentável de soja e pecuária, além de sistemas agroflorestais, restauração e proteção de áreas de vegetação nativa.
Para a TNC, parte desses recursos precisa ser direcionada também à adaptação climática, principalmente à segurança hídrica. “O desafio agora é direcionar parte desse capital para aumentar a resiliência hídrica dos territórios”, afirma Marcos Gambi, gerente de Finanças Agrícolas na TNC Brasil.
Entre as alternativas está a abordagem de paisagem, que integra produção agrícola, conservação, restauração ambiental e gestão dos recursos naturais em um território inteiro. O modelo envolve produtores rurais, empresas, governos, comunidades e instituições financeiras.
Na Bacia do Alto Araguaia, em Mato Grosso, um projeto do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), financiado pela Comissão Europeia e executado pela TNC, combina planejamento territorial, governança da água e Soluções Baseadas na Natureza.
A iniciativa apoia o Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Araguaia, identifica áreas prioritárias e estrutura o Programa Produtor de Água na microbacia do Córrego Fundo, em Barra do Garças. As ações incluem conservação do solo, restauração de vegetação nativa, proteção de áreas de recarga hídrica e Pagamento por Serviços Ambientais (PSA).
Outra frente é o Catalytic Capital for the Agriculture Transition (CCAT), fundo lançado com aporte inicial de US$ 50 milhões. A expectativa é que cada US$ 1 investido atraia outros US$ 4 em capital privado. O mecanismo não é específico para segurança hídrica, mas pode financiar práticas agrícolas de longo prazo consideradas mais sustentáveis e resilientes.









