SÃO PAULO — A diferença de temperatura entre uma área nobre do Morumbi e Paraisópolis pode chegar a 15ºC no verão. Em uma tarde do verão 2024/2025, ruas arborizadas do Morumbi registraram temperaturas próximas de 30°C, enquanto a superfície da comunidade, a poucos metros dali, atingiu até 45°C.
O contraste foi identificado por imagens de satélite e por uma pesquisa do Centro de Estudos da Favela (Cefavela), da Universidade Federal do ABC (UFABC). O estudo aponta que, nas 1.359 favelas paulistas, onde vivem 1,72 milhão de pessoas em apenas 4% do território urbano, a temperatura média da superfície costuma superar 40°C na estação mais quente.
Moradias e infraestrutura
Victor Nascimento, pesquisador do estudo, afirmou que a concentração de moradias de concreto, telhas de fibrocimento ou metal e poucas janelas dificulta a ventilação. Segundo ele, esses fatores transformam as casas em “fornos”. A falta de serviços básicos de água e energia elétrica também torna mais difícil enfrentar o calor em muitas moradias, que frequentemente recorrem a ligações clandestinas.
O Observatório do Clima afirma que decisões urbanas são tomadas “na contramão da adaptação climática”. A falta de investimentos em drenagem pluvial, saneamento ambiental e estruturas sustentáveis nas periferias aumenta a vulnerabilidade diante de enchentes, deslizamentos de terra e ondas de calor.
Para Thaynah Gutierrez, secretária-executiva da Rede de Adaptação Antirracista, o calor extremo nas favelas “aprofunda as desigualdades do racismo ambiental”. Ela descreve uma divisão entre áreas periféricas sem árvores e infraestrutura básica e bairros de maior nível socioeconômico, com mais vegetação e equilíbrio térmico.
Organizações sociais defendem reformas estruturais e investimentos prioritários nos territórios vulneráveis. Entre as propostas está a aplicação da lei federal de 2008 de Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social, que prevê apoio gratuito de arquitetos e engenheiros a famílias de baixa renda.
A assistência poderia contribuir para reformas com janelas planejadas, telhados verdes e isolamento térmico. As organizações também defendem limites térmicos obrigatórios em novos projetos habitacionais. Os desafios climáticos das periferias foram discutidos na quarta edição do Fórum Latino-Americano de Economia Verde, realizado em São Paulo no dia 3 de setembro.








