A guerra envolvendo o Irã provocou mudanças duradouras na economia global, especialmente no comércio de petróleo. Além da alta temporária nos preços da gasolina, do diesel e das hipotecas nos Estados Unidos, o conflito alterou rotas de transporte, padrões de consumo e decisões de produção de energia.
Hormuz sob influência iraniana
O Estreito de Hormuz, por onde passava um quinto do petróleo mundial, deixou de ser uma passagem livre para navios de diferentes países. Depois dos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã no final de fevereiro, Teerã declarou controle sobre o corredor e atacou embarcações que tentavam entrar ou sair do Golfo Pérsico.
O fechamento efetivo retirou 13 milhões de barris diários do mercado global. Em maio, o Irã passou a exigir registro, uso de rotas autorizadas e pagamento de pedágio por meio da Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico.
Um Memorando de Entendimento firmado com os Estados Unidos em junho suspendeu as cobranças por 60 dias, mas os ataques contra navios não registrados continuaram. Depois que o acordo foi deixado de lado, militares americanos coordenaram travessias noturnas para ampliar as exportações e reduzir o risco de ataques de drones iranianos.
Analistas avaliam que uma solução para o conflito pode incluir um sistema de cobrança pela passagem segura. Natasha Kaneva, do JPMorgan, estimou que um modelo semelhante ao adotado pela Turquia poderia acrescentar cerca de US$ 1 ao preço do barril. Um grande navio-tanque pagaria cerca de US$ 260 mil em uma viagem de ida e volta.
China reduz dependência do petróleo
A China usou estoques acumulados antes da guerra e cortou as importações de petróleo bruto em cerca de 5 milhões de barris por dia, de acordo com Joe Brusuelas, da RSM US. O país também acelerou a substituição de petróleo e gás por carvão em suas usinas.
No feriado de primeiro de maio, o carregamento de veículos elétricos nas rodovias chinesas aumentou 55,6% na comparação anual, segundo o Ministério dos Transportes da China. Quase um quarto dos carros em circulação no período era elétrico, alta de 33% sobre o ano anterior.
Dos 1,9 bilhão de barris de petróleo do Oriente Médio que deixaram de chegar ao mercado durante a guerra, 800 milhões foram compensados pela redução do consumo de pessoas e empresas, segundo o JPMorgan. Para Kaneva, choques anteriores indicam que a demanda por gasolina pode continuar menor mesmo após o fim do conflito.
Produção cresce fora do Oriente Médio
A crise também estimulou o aumento da produção em outras regiões. O Brasil acrescentou 800 mil barris por dia; a Guiana, 300 mil; o Canadá, 200 mil; e a Noruega, 150 mil, conforme dados do JPMorgan.
Os Estados Unidos passaram a produzir 900 mil barris diários a mais do que no mesmo período do ano anterior. Parte desse volume abastece refinarias voltadas à produção de combustível de aviação e gás natural para o mercado europeu.
Na Arábia Saudita, caminhões passaram a levar mercadorias até o Mar Vermelho, enquanto o oleoduto Leste-Oeste teve seu uso ampliado para contornar Hormuz. O Iraque negocia com a Chevron a construção de um oleoduto até o Mar Mediterrâneo.
A OPEP também enfrenta mudanças. Os Emirados Árabes Unidos anunciaram a saída do bloco em abril. O Iraque, segundo maior produtor da organização, avalia deixar o grupo caso as metas de produção não aumentem. O país pretende produzir 5 milhões de barris por dia ao fim da guerra e alcançar 7 milhões no longo prazo.
Esse movimento pode levar a Arábia Saudita a aceitar uma produção acima da demanda, com possibilidade de preços menores para os consumidores e de um excesso permanente de oferta, reduzindo os lucros do setor.









