Negociações recentes envolvendo o Los Angeles Lakers e o Liverpool mostram como a paixão dos torcedores se tornou um ativo financeiro no esporte mundial. O time de basquete foi comprado por US$ 12,5 bilhões, enquanto 38% das ações do clube inglês foram vendidos por cerca de US$ 2,7 bilhões.
A aquisição do Lakers envolveu Bob Iger, ex-CEO da The Walt Disney Company, e o empresário Joshua Kushner. No Liverpool, entre os compradores está Jeff Bezos, apontado como o quarto homem mais rico do mundo.
Torcida global e novos modelos de negócio
A expansão das transmissões por streaming e de outros canais ampliou o alcance dos clubes. Nicholas Burridge, inglês que mora no Rio de Janeiro há mais de 20 anos, acompanha os jogos do Liverpool e afirma que consegue transmitir esse vínculo aos filhos. “Com certeza o fato de eles conseguirem ver isso pelo streaming e outros canais aumentou o interesse”, disse.
A transformação também ocorreu na estrutura de propriedade. Clubes que antes funcionavam em modelos associativos, com associados responsáveis pela escolha de presidentes e dirigentes, passaram a adotar formatos corporativos, com proprietários e investidores. No Brasil, a Sociedade Anônima do Futebol, conhecida como SAF, é o modelo mais conhecido. Atlético-MG e Botafogo estão entre os clubes que adotaram esse formato.
Para Amir Somoggi, sócio-fundador da Sports Value, a diferença de estrutura ajuda a explicar a competição entre clubes brasileiros e argentinos. “Na Argentina, os clubes não querem virar empresa, como aconteceu aqui no Brasil com as SAFs”, afirmou.
Escassez eleva os valores
O esporte ao vivo mantém uma audiência interessada em acompanhar os eventos em tempo real, o que o torna relevante para emissoras e anunciantes. Entre os 20 times de maior faturamento do mundo, 43% da receita vêm de patrocínios e outras atividades comerciais, 38% dos direitos de transmissão e 19% dos dias de jogo, segundo levantamento da consultoria Deloitte.
As redes sociais de atletas com milhões de seguidores também ajudam a converter torcidas locais em públicos globais. Um relatório do banco JP Morgan aponta que existem 1.500 bilionários nos Estados Unidos, mas apenas 200 times profissionais nas sete principais ligas.
A quantidade limitada de equipes icônicas e abertas a investimentos contribuiu para que Lakers e Liverpool valorizassem cerca de 1.600% em 20 anos. No mesmo período, o principal índice da Bolsa Americana subiu 320%.
Para os torcedores, o investimento precisa resultar em reforços, salários melhores e conquistas. Nicholas avalia que o aumento da receita pode ampliar a capacidade do Liverpool de atrair jogadores e contratar profissionais. Somoggi resume o dilema entre preservar a participação coletiva e buscar títulos com o apoio de um grande investidor.




