RIO DE JANEIRO — Um estudo do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) estima que a Orquestra Maré do Amanhã (OMA) gerou R$ 4,03 em retorno social para cada R$ 1 aplicado no projeto. O levantamento calcula um resultado social líquido de quase R$ 29 milhões.
Criada há 16 anos, a iniciativa já atendeu diretamente mais de 17 mil crianças e jovens. A análise foi feita pela metodologia SROI, que converte em valores monetários as mudanças sociais relacionadas a uma ação para comparar os benefícios identificados com os recursos empregados.
O indicador não representa um pagamento financeiro aos investidores. Ele expressa, em uma mesma medida, efeitos como desenvolvimento pessoal, aprendizagem e ampliação de oportunidades.
Permanência amplia impacto
O IDIS reuniu entrevistas detalhadas, grupos de discussão e questionários com diferentes públicos da OMA, desde crianças da musicalização infantil até integrantes da Camerata Principal. A avaliação identificou que os participantes que permanecem por mais tempo no projeto tendem a gerar maior valor social individual.
A musicalização infantil concentra a maior parte do retorno total por atender um número maior de pessoas. Atualmente, cerca de 3,7 mil alunos participam das atividades em pré-escolas da rede municipal. Já entre os jovens com vínculo mais longo, o valor calculado por participante pode passar de R$ 200 mil ao longo da trajetória.
Os efeitos apontados incluem autoconfiança, resiliência, autogestão e capacidade de relacionamento. Também foram observados avanços em concentração, percepção auditiva e coordenação motora. Educadores da rede municipal destacaram esses resultados principalmente entre crianças de 4 a 6 anos.
A pesquisa também relacionou a participação no projeto à continuidade dos estudos. Para as famílias, a orquestra deixou de ser vista apenas como uma atividade no contraturno e passou a ser associada à formação educacional e às possibilidades profissionais dos alunos. O estudo afirma que essa mudança ajuda a diminuir a pressão para que adolescentes abandonem a escola em busca de renda imediata.
A história dos irmãos Daniel Carvalho e Thalia Carvalho é apresentada como exemplo desse percurso. Eles têm 26 e 29 anos, participam da OMA desde 2012 e estudam, respectivamente, Farmácia e Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Daniel toca violoncelo, e Thalia, contrabaixo. Os dois integram a Camerata Principal e já atuaram como monitores.
Expansão da iniciativa
A OMA foi fundada em agosto de 2010 pelo jornalista Carlos Eduardo Prazeres, em memória do pai, o maestro Armando Prazeres. Armando foi sequestrado e assassinado em 1999, e o carro dele foi encontrado na Maré.
O projeto começou com 30 estudantes em uma escola pública. Hoje, tem sede própria e atividades em 25 Espaços de Desenvolvimento Infantil (EDIs) e 31 escolas municipais. A estrutura inclui seis orquestras mirins, a Orquestra Maré do Amanhã, uma camerata, programas de iniciação musical e coros infantil e juvenil.
A iniciativa também mantém dois núcleos em Porto Trombetas, distrito de Oriximiná, no Pará, voltados a comunidades ribeirinhas e quilombolas. Em 2023, recebeu o reconhecimento de Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Rio de Janeiro.
A avaliação passou a ser usada no planejamento da organização. Entre as recomendações estão aumentar os recitais e concertos para a comunidade, fortalecer o contato com pais e responsáveis e melhorar os sistemas de acompanhamento.
Outra medida foi a criação de uma frente profissional para músicos com mais de 25 anos, com técnica avançada e interesse em seguir carreira na música clássica. O Grupo Formativo Galp, apoiado pela Petrogal Brasil (JV Galp | Sinopec), iniciou a primeira turma em 2025 com 12 integrantes. Desde então, dois obtiveram vagas na Orquestra Sinfônica Brasileira Jovem e uma integrante foi aprovada no curso de Música da UFRJ.








