A autora americana Caro Claire Burke aponta uma contradição nas influenciadoras que se apresentam como esposas tradicionais, conhecidas como tradwives. Segundo ela, muitas defendem a submissão feminina e a permanência das mulheres em casa, mas são as responsáveis por sustentar a família e administrar negócios milionários nas redes sociais.
Burke é autora de Bons Tempos: Yesteryear, romance lançado no Brasil pela Editora Rocco e que será adaptado para o cinema. A história acompanha Natalie Heller Mills, uma influenciadora de 32 anos, casada e mãe de cinco filhos, que espera o sexto.
Na trama, Natalie mostra aos milhões de seguidores uma rotina idealizada em uma fazenda de 200 hectares, no Estado americano de Idaho. Ela prepara pães de fermentação natural, educa os filhos em casa, bebe leite não pasteurizado produzido na propriedade e recolhe ovos das galinhas. A imagem, porém, é apresentada como uma fachada construída para parecer perfeita e gerar lucro.
A personagem acaba transportada para o ano de 1855, período que costuma romantizar na internet. Ao viver naquele contexto, percebe que os chamados bons tempos não são tão agradáveis quanto pareciam. O romance alterna entre o presente e uma versão assustadora do passado.
Performance nas redes sociais
Em entrevista concedida em abril, Burke disse que não se baseou em uma pessoa específica para criar Natalie, mas passou muitas horas pesquisando tradwives nas redes sociais. Ela definiu essas mulheres como aquelas que acreditam em assumir papéis tradicionais e na submissão das esposas aos maridos.
“Uma influenciadora tradwife é alguém que coloca essas ideias em prática online, geralmente ganhando bastante dinheiro”, explicou a autora.
Burke afirmou que a escolha de abordar o tema surgiu do cruzamento entre discussões sobre maternidade, cuidados infantis, trabalho, economia e cultura. Ela classificou o livro como uma sátira sombria e disse que o humor e o medo foram desenvolvidos por instinto.
A autora também declarou que a forma como outras mulheres definem a própria vida não é assunto de terceiros. Para ela, o debate começa quando essas figuras passam a divulgar suas crenças usando uma imagem que pode ser apenas uma performance.
A versão em inglês do romance ficou semanas entre os livros mais vendidos do The New York Times e alcançou o primeiro lugar na ficção do Sunday Times, no Reino Unido. Em junho, a obra liderou o ranking de assuntos mais comentados da plataforma BookTok.
A atriz americana Anne Hathaway comprou os direitos da história e vai produzir e estrelar o filme. Burke afirmou que a equipe de adaptação é apaixonada pelo projeto e que o roteiro, ainda em desenvolvimento, é fenomenal.
Para Rachel Sykes, professora de cultura e literatura contemporânea da Universidade de Birmingham, as tradwives despertam interesse por serem figuras exageradas e extravagantes. O paradoxo entre criticar mulheres profissionais e construir um negócio próprio também tornou essas influenciadoras alvo de debate cultural.









