Em Cuba, a usina nuclear de Juraguá, na província de Cienfuegos, permanece abandonada depois de um projeto iniciado no começo da década de 1980 para reduzir a dependência do petróleo e ampliar a geração de eletricidade no país.
Planejada por Fidel Castro com construção e financiamento da União Soviética, a usina seria a primeira de três e deveria atender a 15% da demanda elétrica da ilha. A expectativa era inaugurar uma nova etapa de segurança energética, mas a obra nunca foi concluída.
Fim do projeto
A oposição dos Estados Unidos, o desastre nuclear de Chernobyl e o colapso da União Soviética contribuíram para interromper a iniciativa. A estrutura de concreto foi abandonada, e pessoas ainda podem circular livremente pelo local.
Perto dali, Nuclear City foi construída para abrigar milhares de trabalhadores ligados ao projeto. Hoje, a cidade também apresenta sinais de abandono. Luis Vargas, eletricista que participou da obra, afirmou que sente “uma profunda tristeza” ao ver a situação atual.
Durante a Guerra Fria, Cuba apostou na relação com a União Soviética e em sua assistência para executar projetos de grande porte. Os Estados Unidos, porém, questionaram a segurança da usina por causa da proximidade com o território americano.
As críticas se intensificaram depois do desastre de Chernobyl, em 1986. Naquele ano, a Comissão Reguladora Nuclear informou ao Congresso americano que o projeto de Juraguá tinha ressalvas, mas se aproximava mais do modelo das usinas ocidentais do que do sistema usado em Chernobyl.
O colapso da União Soviética, em 1989, selou o destino da obra. A usina foi desativada três anos depois, sem entrar em funcionamento. Tentativas de Rússia e Cuba para retomar o projeto ao longo da década de 1990 não avançaram diante das objeções de Washington e das dificuldades financeiras dos dois países.
Em 1995, Nicholas Burns, então porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, declarou que havia dúvidas sobre a qualidade da construção e sobre a capacidade de Cuba de operar a usina com segurança. Cinco anos depois, Fidel Castro informou à Rússia que não tinha mais interesse em concluir o empreendimento.
Dependência de energia
O abandono de Juraguá não encerrou os problemas de abastecimento cubanos. Com produção interna limitada e dependência de importações, Cuba continua enfrentando uma demanda crescente por eletricidade e falta de capacidade para produzi-la. A proibição dos Estados Unidos à venda de petróleo para Havana agravou a crise.
Segundo a AIEA, os Estados Unidos têm 94 reatores nucleares em operação, responsáveis por 18% a 20% da demanda anual de eletricidade. O Canadá tem 17 reatores, a Argentina conta com 3 e o México possui dois.
No Brasil, os dois reatores da usina de Angra têm capacidade para gerar cerca de 2.000 megawatts, valor ligeiramente inferior ao déficit informado pela União Elétrica de Cuba em 16 de setembro.
Na fachada da estrutura de Juraguá, uma placa com inscrições em russo e espanhol ainda exibe o lema: “Que o átomo seja um trabalhador, não um soldado!”. No local, o átomo não se tornou nem uma coisa nem outra.








