O discurso de Donald Trump na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) ampliou o foco dos Estados Unidos sobre a América Latina e repercutiu no debate eleitoral brasileiro. Embora não tenha citado diretamente o Brasil, a fala foi interpretada por uma professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e por diplomatas brasileiros como um recado a países considerados não alinhados ao governo norte-americano.
Trump afirmou que os Estados Unidos poderiam usar força militar para proteger seus interesses no Hemisfério Ocidental. Ele também defendeu a classificação de facções criminosas latino-americanas como organizações terroristas e citou os carteis de drogas do México e o grupo Tren de Arágua, da Venezuela.
Em maio deste ano, o governo Trump classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações narcoterroristas. A medida contrariou o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e atendeu a um pedido de Flávio Bolsonaro, senador e candidato à Presidência.
A professora Carol Pedroso avaliou que o combate ao crime organizado pode entrar na reta final das eleições e ser usado contra Lula, favorecendo Flávio Bolsonaro. Um auxiliar de Lula, porém, disse não identificar recados diretos ao Brasil e afirmou que Trump apenas repetiu a retórica relacionada ao Escudo das Américas.
A aliança, liderada pelos Estados Unidos, reúne 15 países latino-americanos e caribenhos governados por líderes de direita e centro-direita. O Brasil não participa. Nesta terça-feira, o grupo defendeu ações coordenadas contra organizações criminosas e pediu uma reunião de ministros dos países da Organização dos Estados Americanos (OEA). O PCC e o CV aparecem no comunicado.
Lula rejeita interferência externa
Na ONU, Lula disse que a América Latina não deve ser tratada como um “quintal” dos Estados Unidos e afirmou que “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”. O presidente também criticou interferências estrangeiras em processos eleitorais.
Na semana passada, em discurso no Paraná, Lula citou Trump e pediu que ele não interferisse na eleição brasileira. A preocupação entre auxiliares do presidente é que os Estados Unidos estejam tentando influenciar o processo para favorecer Flávio Bolsonaro.
Um relatório do Departamento de Estado criticou o Brasil por supostas falhas no combate ao crescimento do crime organizado. Também houve a divulgação de informações sobre um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) que mencionaria aumento da pressão norte-americana sobre as eleições brasileiras.
Menções à China diminuem
A mudança de foco aparece nos números dos discursos de Trump. Em 2025, a América Latina ocupou 6% das menções; em 2026, chegou a 13%. A China, citada oito vezes em 2025, apareceu uma vez em 2026.
Um diplomata avaliou que a mudança está relacionada à avaliação da política externa de Trump, à agenda latino-americana do governo e ao espaço dado a Marco Rubio, secretário de Estado descendente de cubanos e apontado como possível sucessor de Trump nas eleições de 2028.









