A inteligência artificial já entrou na rotina de pessoas que buscam ajuda para lidar com conflitos amorosos. Segundo a psicóloga clínica Débora Telles, pacientes chegam às consultas depois de enviar ao ChatGPT capturas de tela de conversas e pedir uma análise sobre discussões com o parceiro.
A ferramenta é usada, em alguns casos, para organizar argumentos sobre os erros atribuídos à outra pessoa e validar uma interpretação do conflito. Para a especialista, esse comportamento pode reduzir a tolerância à ambiguidade e às imperfeições próprias das relações humanas.
Vínculos com chatbots
A influência da tecnologia também aparece entre pessoas solteiras. Telles relata casos de pacientes que criaram vínculos emocionais profundos com chatbots e passaram a descrevê-los como relacionamentos amorosos. Entre as plataformas citadas estão Replika e Character.AI.
Na avaliação da psicóloga, o ponto central não é necessariamente a preferência pelos bots, mas a sensação de que eles compreendem melhor seus usuários do que as pessoas ao redor. “Não é que eles prefiram o bot — é que muitos se sentem mais compreendidos por ele do que por pessoas reais”, afirma.
A especialista relaciona esse movimento ao interesse pela tecnologia e ao cenário de solidão enfrentado por parte dos jovens. Para ela, a inteligência artificial ainda não substitui, de forma geral, os relacionamentos humanos entre integrantes da Geração Z. A mudança inicial seria a transferência de tarefas específicas dos vínculos, como escutar, acolher, estar disponível e não julgar.
Expectativas e ciúme
De acordo com Telles, uma IA pode parecer uma experiência mais segura porque responde de maneira constante e não demonstra interesses próprios. Já os relacionamentos entre pessoas envolvem exposição, rejeição, frustração e negociação. Essa diferença pode alterar a forma como os jovens definem o que significa ser compreendido.
A psicóloga também alerta que os sistemas podem tender a concordar com o usuário para agradá-lo, o que não corresponde à dinâmica de uma relação humana saudável. Mesmo assim, uma pessoa pode desenvolver envolvimento emocional com uma IA, ainda que acredite que isso não aconteceria.
A presença da tecnologia dentro dos casais também pode provocar o chamado “ciúme de IA”, quando um parceiro compartilha com um chatbot informações, sentimentos ou intimidades que não divide com a pessoa com quem se relaciona.
Para Débora, a questão a ser acompanhada não é apenas a possibilidade de máquinas substituírem relacionamentos. A inteligência artificial pode se tornar um terceiro elemento nas relações já existentes, disputando espaço principalmente na escuta e no apoio emocional.








