A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) alerta que o excesso de exames e intervenções pode causar mais danos do que benefícios à saúde das mulheres.
A entidade afirma que exames solicitados sem um direcionamento clínico podem identificar alterações sem relevância médica. Esses achados incidentais podem levar a biópsias, novos procedimentos e até cirurgias desnecessárias, especialmente em mulheres sem sintomas e com baixo risco. Resultados alterados também podem provocar ansiedade.
Um exemplo é o rastreamento do câncer de ovário em mulheres assintomáticas e de risco habitual. O uso rotineiro do exame de sangue CA-125 e da ultrassonografia transvaginal não demonstrou redução da mortalidade e pode produzir falsos positivos. O CA-125 também pode apresentar níveis elevados em situações benignas, levando a exames repetidos, consultas especializadas e procedimentos invasivos.
A ginecologista Marta Curado Carvalho Franco Finotti, integrante da Comissão de Ética da Febrasgo, afirma que mulheres sem sintomas e sem histórico familiar de câncer de ovário não devem fazer o rastreio da doença. Ela também desaconselha painéis hormonais quando a dosagem não considera sintomas, idade e contexto clínico.
Na obstetrícia, a preocupação envolve exames e intervenções realizados sem indicação específica. Ultrassonografias muito frequentes, cardiotocografias e monitorização fetal constante podem contribuir para intervenções nocivas e aumentar a ansiedade da gestante e dos familiares.
Entre as intervenções que podem ocorrer sem necessidade estão a medicalização, a amniotomia, a indução do trabalho de parto, a cesariana sem indicação clínica e a episiotomia de rotina. Finotti ressalta que esses procedimentos não devem ser tratados como prejudiciais em todos os casos: quando indicados corretamente, podem ser fundamentais para preservar a vida da mãe e do bebê.
A Febrasgo defende que a escolha de exames e intervenções considere idade, sintomas, histórico pessoal e familiar e fatores de risco. A entidade também destaca que a prevenção não significa fazer todos os exames disponíveis e que intervenções podem causar efeitos adversos.
O oncologista Drauzio Varella criticou a solicitação excessiva de exames e afirmou que listas extensas não demonstram, por si só, preparo profissional. Para Finotti, a segurança da paciente inclui evitar exames, medicamentos, procedimentos e custos desnecessários.
A realização de exames e intervenções sem recomendação também impacta os sistemas de saúde. No SUS, os gastos podem reduzir os recursos destinados ao tratamento de doenças e à prevenção. Na rede privada, procedimentos excessivos podem contribuir para o aumento dos preços dos planos de saúde.








