Mulheres lésbicas continuam enfrentando dificuldades para obter atendimento ginecológico adequado no Brasil. Entre os obstáculos estão a falta de preparo profissional, o preconceito e informações incorretas sobre prevenção de infecções e exames.
A ginecologista Bruna Heinen, do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, afirma que presumir a orientação sexual da paciente pode prejudicar a avaliação. “Quando o profissional presume a orientação sexual, ele deixa de investigar aspectos importantes da saúde sexual da paciente”, explica.
Mitos sobre infecções e prevenção
A ideia de que mulheres lésbicas não estão sujeitas a infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) pode contribuir para o afastamento dos serviços de saúde. HPV, herpes, sífilis e hepatites podem ser transmitidos entre mulheres por contato direto, secreções ou compartilhamento de objetos.
A orientação sexual também não elimina a necessidade de exames preventivos. O rastreamento do câncer do colo do útero continua indicado conforme a idade e o histórico de saúde. O exame citopatológico, conhecido como Papanicolau, e os testes para outras ISTs permanecem recomendados.
“Esse acompanhamento não depende da orientação sexual, mas dos fatores de risco e das diretrizes de saúde”, afirma Bruna.
Barreiras durante a consulta
A ginecologista Paolinne Silva, do Sírio-Libanês, em Brasília, relata que muitos profissionais assumem que as pacientes se relacionam com homens. Essa conduta pode fazer com que dúvidas fiquem sem resposta e que a mulher não se sinta ouvida.
Comentários inadequados e perguntas padronizadas, como referências automáticas a “marido”, também podem aparecer no atendimento. Algumas mulheres deixam de procurar consultas por medo de constrangimento ou por acreditarem que não precisam de acompanhamento.
Para Bruna, o cuidado deve incluir linguagem respeitosa, ausência de suposições sobre orientação sexual ou práticas, explicação de cada etapa, pedido de consentimento e respeito aos limites da paciente. Paolinne resume que a escuta é essencial para entender o contexto de cada mulher e orientar o cuidado adequado.
Formação profissional
As especialistas apontam que a formação médica ainda aborda o tema de maneira limitada, muitas vezes dentro de uma visão heteronormativa. As falhas incluem treinamento insuficiente em comunicação e pouca discussão sobre práticas sexuais diversas e prevenção de ISTs entre mulheres.
Bruna defende a ampliação do assunto na graduação, na residência e na educação continuada, além da criação de protocolos para garantir um ambiente seguro. Sem atendimento adequado, parte dessa população permanece com dúvidas, sem acompanhamento regular ou afastada dos serviços de saúde.








