A internet mudou a forma como adolescentes têm contato com informações sobre sexo. Antes mesmo da primeira relação, eles podem encontrar pornografia, vídeos sobre desempenho, conteúdos sobre o corpo e relatos de experiências. O acesso, porém, não garante que o material seja confiável ou realista.
A pornografia é produzida para entretenimento e pode apresentar corpos, relações e práticas distantes do cotidiano. Também costuma deixar fora temas como consentimento, contracepção, prevenção de infecções sexualmente transmissíveis, intimidade, comunicação e respeito aos limites.
Uma revisão sistemática sobre jovens de 16 a 25 anos apontou ampla exposição à pornografia on-line, com diferenças entre homens e mulheres e variações nos padrões de consumo. Outra revisão encontrou associação, em parte dos estudos, entre exposição a esse conteúdo e início mais precoce da vida sexual. Os autores, no entanto, destacaram limitações metodológicas e não identificaram evidências consistentes de causalidade para vários comportamentos.
Sexualidade também acontece no celular
Conversas íntimas, paquera, relacionamentos e troca de imagens podem ocorrer antes de um encontro presencial. O sexting, que envolve o envio ou recebimento de mensagens, fotos ou vídeos sexualmente sugestivos ou explícitos, faz parte da realidade de uma parcela dos adolescentes.
Uma meta-análise publicada em 2026 associou o sexting a diferentes comportamentos sexuais entre adolescentes, sem estabelecer que o envio de uma mensagem íntima seja a causa deles. O ambiente digital também traz riscos: imagens compartilhadas voluntariamente podem ser encaminhadas sem consentimento, permanecer armazenadas ou ser usadas para pressão, humilhação e chantagem.
Consentir em produzir ou enviar uma imagem não significa autorizar seu repasse a outras pessoas. Por isso, a orientação sobre sexualidade também precisa incluir privacidade e os efeitos do uso de imagens manipuladas digitalmente.
Mais acesso não significa mais proteção
Dados da Organização Mundial da Saúde mostram que, entre adolescentes de 15 anos sexualmente ativos de 42 países e regiões da Europa, Ásia Central e Canadá, o uso de preservativo na última relação caiu de 70% para 61% entre os meninos e de 63% para 57% entre as meninas, entre 2014 e 2022. Quase um terço disse não ter usado preservativo nem pílula anticoncepcional nessa ocasião.
A organização também registrou aumento do uso problemático de redes sociais entre adolescentes: de 7% em 2018 para 11% em 2022. Os dados não permitem afirmar que redes sociais ou pornografia tenham provocado a redução do uso de preservativos, mas mostram que estar conectado não significa estar protegido.
Família, escola e profissionais de saúde continuam responsáveis por oferecer informações sobre corpo, prevenção, consentimento, prazer, respeito, expectativas e relacionamentos. Para o urologista Marcos Tobias Machado, doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e membro da Brazil Health, evitar o tema não impede o contato do adolescente com ele. Sem orientação, a primeira resposta pode vir de uma busca, de um vídeo ou de alguém sem informação correta.
A internet já participa da construção da sexualidade na adolescência. O desafio é impedir que as telas sejam a única referência sobre sexo.








