A nova produção de Avenida Brasil deve usar a passagem do tempo como parte da própria história. Anunciada pela TV Globo nesta semana, a continuação da novela exibida originalmente em 2012 tem estreia prevista para janeiro de 2027 e será escrita por João Emanuel Carneiro.
A avaliação de especialistas é que a sequência terá de equilibrar a memória construída pela obra original com mudanças capazes de refletir o presente. Para Henrique da Silva Pereira, doutor em Comunicação pela UNESP, uma continuação pode recuperar personagens, situações e temas sem simplesmente apagar ou suavizar os aspectos mais controversos da produção anterior.
O desafio de continuar uma história conhecida
Pereira afirma que a distância entre as duas obras pode ser aproveitada pela dramaturgia. Na visão dele, uma continuação permite mostrar como relações sociais, linguagem e público se transformaram ao longo do tempo. O especialista considera que isso pode levar a uma leitura crítica do passado, em vez de apenas repetir elementos conhecidos.
“A televisão sempre falou muito de si mesma”, diz Pereira. Para ele, a TV transforma arquivos, personagens, atores, gêneros, imagens e formatos em material para novas produções. No caso de Avenida Brasil, a trama continuou sendo reinterpretada depois da exibição original por meio de plataformas de streaming, redes sociais, memes, vídeos e reprises.
O professor também avalia que personagens como Carminha, Nina e Tufão, além do bairro do Divino, ultrapassaram os limites da novela. A obra abordava vingança, segredos familiares, ascensão social e conflitos amorosos, mas também dialogava com questões de classe, consumo e mobilidade social no Brasil daquele momento.
Remakes e continuações na televisão
A Globo produziu, nos últimos seis anos, novas versões de Pantanal, originalmente de 1990 e refeita em 2022; Elas por Elas, de 1982 e retomada em 2023; Renascer, de 1993 e refeita em 2024; e Vale Tudo, de 1988 e recontada em 2025.
Também foram lançadas continuações como Verdades Secretas 2, relacionada à novela de 2015 e exibida em 2021; Nos Tempos do Imperador, sequência de Novo Mundo, de 2017, produzida em 2021; e Êta Mundo Melhor!, continuação de Êta Mundo Bom!, de 2016, lançada em 2025.
Para Elzemann Neves, roteirista e coordenador dos cursos de roteiro na Academia Internacional de Cinema - AIC, a escolha por remakes tem motivação mercadológica. Segundo ele, o reconhecimento prévio dos personagens pode atrair parte do público, mas não garante resultado. A nova versão precisa interessar tanto a quem conhece a produção original quanto a quem nunca teve contato com ela.
Atualização e memória afetiva
Neves afirma que atualizar uma história é necessário, mas pode fazer com que a produção perca parte do frescor original. Ele considera que o roteiro precisa preservar a essência da obra e, ao mesmo tempo, dialogar com os novos tempos.
Pereira ressalta que remakes e continuações lidam diretamente com a memória afetiva do público. Uma versão nova pode ser vista como desnecessária, dependente demais da nostalgia ou incapaz de manter o legado anterior. As redes sociais ampliam esse julgamento ao estimular comparações entre as produções e suas atuações.
O especialista lembra que obras também são marcadas pelo período em que foram criadas. Vale Tudo, por exemplo, surgiu depois da Ditadura Militar e tratava de assuntos presentes naquele contexto. Ao ser recontada, encontrou um cenário político diferente, com temas já discutidos durante quase quatro décadas.
O que pode mudar em Avenida Brasil 2
A expectativa é que a continuação reveja temas e cenas da novela, mas o resultado dependerá das escolhas criativas da equipe. Neves afirma que não faria sentido produzir uma nova obra apenas para repetir a anterior; por outro lado, alterações excessivas podem afastar características centrais da história.
“A comparação é uma cilada intrínseca de qualquer remake, para o bem ou para o mal”, afirma Neves. Para ele, o público pode reagir negativamente quando uma mudança não agrada, especialmente porque as redes sociais facilitam a circulação de comparações entre original e nova versão.
Pereira considera que a continuação terá a oportunidade de apresentar a diferença entre o Brasil de 2012 e o Brasil de 2027. Mais do que corrigir a novela anterior, a nova produção poderá discutir como os conflitos e os personagens são percebidos depois de 15 anos.







