O reajuste do Bolsa Família anunciado a 17 dias da eleição se tornou um dos principais elementos da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. O benefício mínimo passará de R$ 600 para R$ 691, enquanto o valor médio estimado subirá de R$ 675 para R$ 777. Os novos pagamentos começarão depois do primeiro turno, em 19 de outubro.
A eleição continua aberta, com os dois candidatos separados por pequena distância nas pesquisas. O Instituto Real Time Big Data aponta rejeição de 50%% para Lula e de 49% para Flávio Bolsonaro. Nesse cenário, as campanhas precisam reduzir resistências, mobilizar suas bases e convencer os indecisos de que o adversário representa um risco maior.
A disputa pelo significado do Bolsa Família
O governo afirma que o reajuste recompõe a inflação desde a reformulação do programa, em 2023, e que houve espaço fiscal para a medida. Politicamente, porém, o calendário pesa: a decisão projeta a imagem de um governo que oferece um ganho concreto enquanto o eleitor define seu voto.
Como o dinheiro ainda não terá sido depositado no primeiro turno, Lula apresentará uma expectativa de benefício. A oposição deve explorar o caráter eleitoral, o custo futuro e a sustentabilidade do reajuste. A medida pode fortalecer o presidente entre os beneficiários e, ao mesmo tempo, estimular na classe média a percepção de uso da máquina pública.
Os programas sociais alcançam milhões de famílias e têm peso maior no Nordeste, nas periferias e nos municípios menores. Lula tentará transformar essa presença em votos. Flávio precisará defender a manutenção dos benefícios sem repetir o modelo do PT.
Ruptura contra proteção social
Flávio Bolsonaro deve se apresentar como uma alternativa à velha ordem e associar Lula, o PT, o STF e a burocracia a uma mesma estrutura de poder. Essa narrativa busca conquistar o voto de protesto, mesmo com o candidato ligado à política tradicional.
Lula, por sua vez, não disputa no terreno da ruptura. Como presidente, representa a continuidade e deve apresentar o Estado como instrumento de proteção social. De um lado, aparecem as promessas de renda, comida, gás, luz, emprego e serviços; de outro, a defesa de uma quebra do sistema.
O peso do STF
A crise no Supremo Tribunal Federal também pode alterar a disputa. O desgaste tende inicialmente a atingir mais Lula, identificado com o poder constituído, que indicou Flávio Dino para a Corte e teve no STF um anteparo contra o bolsonarismo. Confrontos entre ministros e suspeitas relacionadas ao caso Banco Master dão espaço para o discurso de oposição ao sistema.
Flávio pode usar o episódio para mobilizar eleitores que veem o Supremo como ator político, e não apenas como guardião da Constituição. Mas o tema também oferece riscos ao campo bolsonarista: André Mendonça foi indicado por Jair Bolsonaro, e eventuais vínculos do escândalo com personagens desse grupo podem enfraquecer a imagem de pureza da oposição.
Lula deve defender uma apuração geral e atribuir o caso ao ambiente do governo anterior. O impacto dependerá do rumo das investigações. Se a crise permanecer associada à arrogância institucional, prejudicará mais o presidente; se surgirem provas contra figuras próximas ao bolsonarismo, Flávio também poderá ser atingido.
A combinação entre rejeição elevada, programas sociais, narrativa antissistema e crise institucional pode fazer da eleição uma comparação de riscos. Em vez de escolher o candidato mais admirado, o eleitor poderá optar por quem parecer administrar melhor a própria rejeição e oferecer a segurança mais crível.
Gaudêncio Torquato é professor emérito da USP, escritor, jornalista e consultor político.








