A palmada costuma aparecer em situações de cansaço, estresse e perda momentânea do controle, segundo um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). O levantamento mostra que muitos cuidadores ainda consideram esse tipo de punição uma maneira aceitável de impor limites, embora a legislação brasileira garanta o direito de crianças e adolescentes à educação sem castigo físico.
Divulgado nesta quinta-feira (24), o estudo foi realizado entre 2024 e 2026 com 214 pessoas do Rio de Janeiro, Manaus e Recife. Por ser uma pesquisa qualitativa, não permite calcular quantos pais ou responsáveis recorrem a agressões físicas no país. A proposta é identificar crenças, normas sociais e dificuldades que ajudam a manter a prática.
O que aparece por trás da palmada
Nas comunidades analisadas, afetadas pela violência armada, alguns participantes associam a rigidez na criação a uma forma de proteger os filhos. A preocupação é evitar que as crianças se tornem vítimas ou tenham contato com o crime organizado.
A sobrecarga também influencia as reações dos adultos. Como a maior parte das tarefas de cuidado recai sobre as mães, o esgotamento pode dificultar a busca por alternativas a tapas, beliscões e gritos. Ao mesmo tempo, vizinhos, amigos e parentes frequentemente não intervêm. Alguns temem retaliações; outros entendem que cada família deve criar os filhos à sua maneira.
Uma pesquisa do Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis) com a Quaest, divulgada em 2026, indica a distância entre o que os cuidadores afirmam considerar melhor e o que relatam fazer. Embora 91% apontem o diálogo como a melhor forma de corrigir comportamentos infantis, 49% dizem já ter dado tapas, 62% já ter gritado e 27% já ter usado algum objeto para bater.
A dificuldade de mudar a prática
O estudo aponta que criar sem bater envolve mais do que abandonar a palmada. Muitos adultos relatam não saber como agir diante de birras, desobediência e resistência a limites. Essas são situações comuns da infância e costumam ser enfrentadas com os métodos disciplinares que os próprios cuidadores aprenderam.
Mães mais jovens estão entre as participantes que demonstraram arrependimento depois de bater e vontade de construir uma relação baseada no diálogo. Ainda assim, o cansaço e o estresse podem tornar difícil aplicar essa mudança no dia a dia.
Para Luiza Teixeira, especialista de Proteção à Criança do Unicef no Brasil, “muitos ainda acreditam que bater é uma forma legítima de educar, disciplinar e corrigir”.
A Lei Menino Bernardo (Lei 13.010/2014), em vigor desde 2014, não estabelece uma separação entre palmada e violência. O estudo considera castigo corporal qualquer punição que use força para causar dor ou desconforto, independentemente da intensidade.
Apoio para as famílias
Entre as recomendações estão campanhas que mostrem como agir em situações de conflito, e não apenas orientações para não bater. O Unicef também defende maior participação dos homens no cuidado.
Profissionais da rede de proteção relataram falta de preparo para orientar as famílias. Os serviços, segundo os relatos reunidos no estudo, costumam chegar depois da agressão, em vez de atuar antes. Para o Unicef, a chamada parentalidade protetiva deve fazer parte das agendas políticas de primeira infância e assistência às famílias em ano de eleição.








