Vídeos do TikTok com termos usados na psicologia podem deixar as pessoas mais atentas à própria saúde mental, mas não necessariamente aumentam o conhecimento sobre o assunto. Essa é a conclusão de uma pesquisa conduzida por Zoe Stephens, do Scripps College, nos EUA.
O estudo envolveu 95 universitários americanos, com idades entre 18 e 24 anos. Eles assistiram a vídeos com expressões como “gatilho”, “trauma” e “apego ansioso” ou a conteúdos neutros. Depois, responderam a questionários sobre alfabetização, consciência e estigma em saúde mental.
Atenção maior, conhecimento igual
Os participantes expostos ao chamado “terapeutiquês” relataram mais consciência sobre a própria saúde mental. O conhecimento técnico, porém, não mudou em relação ao grupo que viu os vídeos neutros. Pessoas que nunca haviam refletido sobre o tema passaram a perceber que certos sentimentos e comportamentos poderiam merecer atenção.
Também apareceu um sinal de aumento do estigma, mas esse resultado deixou de ter significância estatística depois de uma correção mais exigente.
A pesquisa aponta que o vocabulário psicológico pode ajudar a nomear emoções difíceis de explicar. O problema surge quando a expressão substitui a conversa ou vira um diagnóstico informal. “Validar o sentimento”, por exemplo, significa reconhecer a emoção de alguém, mesmo sem concordar com os fatos. No uso cotidiano, porém, a frase pode encerrar o diálogo quando alguém acusa o outro de “invalidar meus sentimentos”.
Termos populares e informação enganosa
A presença de palavras como “limites”, “gatilho” e “gaslighting” nas redes acompanha uma mudança mais ampla na forma de falar sobre saúde mental. Um estudo publicado na JAMA Pediatrics identificou que letras de rap mencionando depressão passaram de 16% para 32% entre 1998 e 2018. No TikTok, hashtags sobre o tema acumulam bilhões de visualizações.
O formato curto e a promessa de explicar rapidamente uma experiência podem ajudar a popularizar esse vocabulário. Mas um levantamento de 500 vídeos com hashtags de saúde mental encontrou conteúdo enganoso em 83,7% deles. Entre os vídeos sobre TDAH, a proporção chegou a 100%. Em muitos casos, não havia aviso de que o responsável pelo conteúdo não tinha formação na área.
O uso exagerado também pode transformar desconfortos comuns em supostos problemas psicológicos. Uma discussão pode ser chamada de “gaslighting”, uma pessoa desagradável pode ser classificada como “narcisista” e uma experiência dolorosa pode receber o rótulo de “trauma”.
Em um estudo de fevereiro de 2023, pesquisadores de Oxford alertaram para a possibilidade de que interpretar um desconforto normal como sinal de um problema psicológico leve a pessoa a evitar situações difíceis. Essa fuga pode aumentar o mal-estar.
A linguagem da terapia pode ser uma porta de entrada para reconhecer sofrimentos reais, mas consciência e conhecimento não são a mesma coisa. Sem compreensão, os termos podem virar rótulos, atalhos em discussões ou formas de silenciar outras pessoas.









