A dependência brasileira dos combustíveis fósseis mantém o país exposto a crises internacionais que afetam o diesel, o frete e os preços dos alimentos. Em artigo, Alexandre Gross e Ricardo Fujii, do WWF-Brasil, defendem que a transição energética pode reduzir essa vulnerabilidade e proteger o orçamento público de medidas emergenciais.
O Brasil tem 88,2% da eletricidade gerada a partir de fontes renováveis. Quando entram no cálculo os combustíveis usados no transporte, na indústria e em outras atividades, as fontes renováveis representam cerca de 50% da matriz energética.
Para os autores, essa posição permite ao país acelerar a mudança e diminuir a dependência do petróleo e de seus derivados. O transporte, porém, ainda é apontado como uma das principais vulnerabilidades, devido ao uso elevado de diesel e à exposição aos preços do mercado internacional.
Apoio à diversificação
O artigo cita uma pesquisa da GGON (Global Gas and Oil Network), segundo a qual 72% dos brasileiros consideram que o desenvolvimento econômico seria mais bem atendido pela diversificação das atividades para além do petróleo e do gás. Outros 67% entendem que a Petrobras deve liderar ativamente esse processo.
As fontes renováveis também têm apoio da maioria. Conforme os dados apresentados, 89% defendem uma participação prioritária ou equilibrada das renováveis, enquanto 7% preferem manter o foco nos combustíveis fósseis.
Os autores também mencionam uma Análise Socioeconômica de Custo-Benefício do WWF-Brasil, baseada na metodologia do Governo Federal. O estudo aponta que insistir na exploração de petróleo na Foz do Amazonas pode provocar um prejuízo social de R$ 22,2 bilhões. Já a destinação dos investimentos para energias renováveis poderia gerar um benefício líquido de R$ 24,8 bilhões.
A diferença representa um custo de oportunidade potencial de R$ 47 bilhões, conforme o artigo. A avaliação considera que a substituição progressiva por biocombustíveis e fontes limpas pode evitar perdas econômicas e reduzir o risco de ativos encalhados.
Planejamento e adaptação
Gross e Fujii afirmam que o país já tem capacidade técnica e produtiva para avançar, mas precisa alinhar discurso, planejamento e investimentos. Entre as medidas citadas estão incentivos, regulação e infraestrutura para redes, armazenamento, biocombustíveis e biometano.
A mudança, segundo os especialistas, não reduziria imediatamente a conta de luz ou o preço do diesel. O processo exigiria planejamento, investimentos em transmissão e regras estáveis para atrair capital privado. Também seria necessário apoiar trabalhadores do transporte e cadeias industriais que dependem do diesel durante o período de adaptação.
O artigo afirma que o governo, o Congresso e o setor privado têm responsabilidades nessa agenda. Os autores defendem que a transição energética deve ganhar espaço no debate de 2026, ano de eleição, e avaliam que promessas de combustível mais barato não resolvem a dependência estrutural do petróleo.
Para Gross e Fujii, enquanto caminhões, alimentos e mercadorias dependerem dos preços internacionais do petróleo, crises geopolíticas continuarão afetando o consumidor brasileiro. A transição não eliminaria o problema de imediato, mas poderia reduzi-lo de forma permanente.









