A aproximação entre países dos BRICS pode ajudar a ampliar respostas à crise climática, apesar das diferenças e dos desafios enfrentados pelo grupo. Um estudo do Instituto Igarapé identificou soluções baseadas na natureza e iniciativas de bioeconomia em vários países do bloco.
A China incorporou sistemas naturais de drenagem à infraestrutura urbana. Na África do Sul, a recuperação de rios e paisagens foi associada à geração de empregos. Índia e Etiópia aproximaram restauração ambiental, agricultura e participação comunitária. Indonésia e Emirados investiram na proteção de manguezais, enquanto o Egito avançou em práticas agrícolas adaptadas à escassez de água.
Pressões sobre o Brasil
A necessidade de ampliar essas medidas ganha importância diante da previsão de um El Niño que pode estar entre os mais intensos das últimas décadas. No Brasil, são esperadas chuvas mais fortes e acima da média, além de períodos prolongados de seca e temperaturas elevadas. O cenário pode ampliar ondas de calor e incêndios florestais, afetar a produção de alimentos, elevar preços e provocar perdas econômicas.
Entre 1985 e 2025, a cobertura de vegetação nativa no território brasileiro caiu de 79% para 65%, enquanto a área ocupada pela agropecuária aumentou de 18% para 32%, segundo o MapBiomas. A redução da vegetação diminui a capacidade de regular a água, proteger o solo e responder a temperaturas extremas, elevando a exposição a secas, enchentes e incêndios.
O Brasil também reúne experiências que podem ser compartilhadas, como o monitoramento por satélite, o controle do desmatamento, os sistemas agroflorestais e a restauração de ecossistemas tropicais. Essas iniciativas podem apoiar parcerias com China, África do Sul, Índia e Etiópia.
A cooperação entre os países, porém, ainda é fragmentada e está abaixo de seu potencial. Fóruns dos BRICS podem facilitar o compartilhamento de políticas, tecnologias e resultados. O Novo Banco de Desenvolvimento pode ampliar o financiamento de projetos de restauração, agricultura resiliente, infraestrutura verde e proteção de ecossistemas.
O grupo também enfrenta dependência de combustíveis fósseis, desmatamento, conflitos pelo uso da terra, desigualdade e dificuldades de implementação. Além disso, projetos de reflorestamento inadequados às condições locais podem prejudicar a biodiversidade e a disponibilidade de água, enquanto a expansão de biocombustíveis pode disputar terras com a produção de alimentos.
Para Laura Trajber Waisbich, diretora adjunta de Pesquisa do Instituto Igarapé, comparar resultados e adaptar soluções a cada realidade pode acelerar medidas de adaptação, restauração, planejamento rural e urbano, proteção de ecossistemas e transformação dos sistemas produtivos.









