NOVA YORK — O Fundo Vale afirma ter atraído R$ 5,9 de outras instituições para cada R$ 1 investido em iniciativas de natureza e clima. O dinheiro veio de bancos, fundos, organismos internacionais e investidores públicos, conforme o Relatório de Impacto da Vale.
Criado em 2009, o fundo aplicou R$ 576 milhões em 169 projetos e 887 negócios durante 16 anos. A estratégia descrita no documento é usar os recursos como capital catalítico, reduzindo riscos e estimulando a entrada de financiadores que não participariam sozinhos.
Como funciona a estratégia
O Fundo Vale pode assumir as primeiras perdas, oferecer garantias ou aceitar receber por último em uma operação. Com isso, busca melhorar a relação entre risco e retorno para os investidores que entram depois. O modelo é usado em cadeias com ciclos longos, pouca estrutura e poucas garantias reconhecidas pelo sistema bancário.
Grazielle Parenti, vice-presidente de Sustentabilidade da Vale, afirma que o índice de mobilização não é fixo. “A alavancagem não é automática”, diz. Segundo ela, o resultado depende do mecanismo financeiro, da maturidade do negócio, dos parceiros, do ambiente regulatório e do cenário macroeconômico.
Além do dinheiro, o fundo oferece apoio em áreas como pesquisa, governança e mensuração. Na maior parte das iniciativas, atua com recursos não reembolsáveis, por meio de doações, suporte a estruturadores e desenvolvimento de teses de impacto. Em mecanismos relacionados à Meta Florestal 2030, a Vale também participa como investidora.
Nos últimos cinco anos, a companhia diz ter estruturado ou apoiado mais de dez mecanismos. Entre eles estão o Fundo VC Floresta e Clima, o Mecanismo Amazônia Viva, responsável pela operação do CRA Verde, e a frente de investimentos da AMAZ.
Florestas e bioeconomia
A Belterra Agroflorestas é um dos casos acompanhados pelo Fundo Vale. Desde 2020, a organização participa da estruturação financeira e da governança da empresa. O trabalho ajudou a viabilizar o financiamento de sistemas agroflorestais e contribuiu para uma rodada de equity de até R$ 75 milhões, em maio deste ano.
A Vale também relaciona a atuação à localização de sua principal operação. Cerca de 60% da produção da companhia sai da Amazônia, região em que a floresta preservada é considerada um ativo estratégico pela empresa.
A Meta Florestal 2030 prevê proteger e recuperar 500 mil hectares até o fim da década, além das obrigações legais. De acordo com o relatório, cerca de 45% da meta foi cumprida, o equivalente a aproximadamente 225 mil hectares. Foram destinados R$ 292 milhões diretamente aos negócios e outros R$ 38 milhões a apoio não financeiro, em modelos como regeneração natural assistida, sistemas agroflorestais e Integração Lavoura-Pecuária-Floresta.
A companhia afirma ainda ter destinado cerca de US$ 1,7 bilhão a ações de mitigação e adaptação desde 2020. A estratégia climática prevê emissões líquidas zero nos Escopos 1 e 2 até 2050 e redução de 15% no Escopo 3 até 2035.
Limites e próximos passos
Recursos públicos e concessionais continuam importantes nas fases iniciais dos negócios. Na bioeconomia amazônica, o relatório aponta desafios como risco elevado, baixa maturidade empresarial, fragilidades de escala e governança, poucas garantias e falta de infraestrutura.
O Fundo Vale participa de iniciativas como o Mecanismo Financeiro Amazônia Viva, o Fundo Socioambiental Conexsus e o Sustenta.Bio, que abrange 15 áreas protegidas e 10 milhões de hectares na Amazônia.
Um estudo da International Chamber of Commerce estima que a bioeconomia do conhecimento movimenta US$ 2 bilhões por ano, pode alcançar US$ 140 bilhões até 2032 e demandará US$ 15,7 bilhões em investimentos na próxima década. Para Grazielle Parenti, essa necessidade exigirá a combinação de capital público, filantrópico e privado, além de políticas públicas e do fortalecimento do setor.
Patricia Daros, diretora de Natureza da Vale, afirma que negócios socioambientais podem levar de cinco a dez anos para gerar retornos consistentes. Por isso, segundo ela, são necessários capital paciente, recursos flexíveis e soluções adaptadas a cada território.
O primeiro ciclo da Teoria da Mudança 2020–2030 apontou avanços na estruturação de negócios, na mobilização de recursos e na articulação do setor. O crescimento e a autonomia financeira das iniciativas, porém, ocorreram mais lentamente do que o previsto, levando o Fundo a buscar novas receitas, como créditos de carbono.
Até 2030, a organização pretende avaliar os resultados não apenas pela quantidade de hectares recuperados ou pelo capital mobilizado, mas também pelos efeitos ambientais, econômicos e sistêmicos. O desempenho será medido pela capacidade de os negócios continuarem captando recursos depois da saída do capital catalítico.








