SÃO PAULO — O Grupo Ricoy faliu depois de anos de expansão, aumento da concorrência e dificuldade para manter o caixa. A empresa chegou a operar 96 supermercados em mais de 70 municípios de São Paulo, empregou mais de 5.000 pessoas e informou faturamento consolidado de 1,64 bilhão de reais em 2025.
No fim do processo, a rede tinha 4.671 credores e 461,1 milhões de reais em créditos sujeitos à recuperação judicial. Em julho, os credores rejeitaram o plano apresentado pelo grupo.
A crise foi agravada por aquisições, passivos financeiros e pelo avanço dos atacarejos. O Ricoy cresceu comprando redes menores e passou a reunir operações de varejo, atacarejo, distribuição e indústria. A estratégia aumentou a escala, mas também deixou a estrutura mais complexa.
Expansão e passivos
A origem do grupo está em supermercados de bairro da Zona Sul de São Paulo. Paulo Tadao comandava a Yokoy, com 12 lojas, enquanto Hermes Kinshoku administrava a Riviera, com sete. A união das operações deu origem ao nome Ricoy.
Ao longo dos anos, o grupo incorporou ou passou a administrar marcas como Amais, Economax, Pão de Mel, Peri, Gimenez, Rei do Gado e Russi. Em 2009, ficou com lojas menores da rede Gimenes, de Sertãozinho, em uma operação que também envolveu o Carrefour. Em 2011, abriu um centro de distribuição na Grande São Paulo.
Uma das principais aquisições ocorreu em 2012, quando o Ricoy incorporou o Grupo Russi, de Jundiaí. A empresa tinha 16 lojas e faturamento estimado em cerca de 800 milhões de reais. A operação também envolveu a assunção de aproximadamente 200 milhões de reais em dívidas.
Mais tarde, o próprio Ricoy apontou a compra entre os fatores que contribuíram para a crise. O laudo econômico-financeiro entregue à Justiça informou que foram identificados impactos fiscais e tributários não previstos integralmente na avaliação inicial. Esses passivos aumentaram o endividamento operacional e pressionaram a liquidez.
Concorrência e falta de caixa
Em dezembro de 2012, o grupo inaugurou a primeira unidade do Vencedor Atacadista. Rodolfo Jungi Nagai, fundador do Assaí, havia comprado 33% do Ricoy em 2011, depois de vender sua antiga rede ao Grupo Pão de Açúcar. Ele levou ao grupo executivos com experiência no atacarejo.
O formato avançou nas regiões onde o Ricoy já atuava. No laudo entregue à Justiça, a companhia colocou o aumento da concorrência entre as principais causas da crise e estimou que o atacarejo representava mais de 29% do mercado.
A disputa reduziu as margens e, a partir de 2022, o custo do crédito também aumentou, com a Selic acima de 13%. O grupo informou que o descumprimento de cláusulas financeiras previstas em contratos levou à retenção de recebíveis de cartão.
Com menos dinheiro disponível, o Ricoy perdeu capacidade de comprar mercadorias. A redução dos produtos afetou as vendas e aumentou a pressão sobre fornecedores, que poderiam diminuir prazos, exigir pagamento antecipado ou restringir entregas.
Recuperação sem solução
Em 2024, a empresa começou a vender lojas para tentar aliviar o caixa. Em maio de 2025, o Grupo Bem Barato assumiu sete unidades do Ricoy e do Vencedor Atacadista no ABC paulista. Outra unidade, na região da Guarapiranga, passou ao Ayumi.
Em 29 de outubro de 2025, 33 empresas do grupo entraram em recuperação judicial, com passivo declarado de 518,9 milhões de reais. A média mensal do faturamento consolidado informado para 2025 foi de cerca de 136,8 milhões de reais. A receita caiu para 35,2 milhões de reais em dezembro e para 26,3 milhões de reais em janeiro de 2026.
No plano apresentado em janeiro de 2026, os credores quirografários poderiam receber até 30.000 reais, com perdão do restante, ou aceitar desconto de 85%. Nesse segundo modelo, receberiam 15% do valor original após quatro anos de carência, em 12 parcelas anuais.
O grupo projetava receita bruta de 779 milhões de reais em 2026 e 1,2 bilhão de reais em 2027. Em março de 2026, os sócios venderam suas participações nas empresas por um negócio que previa aporte de 50 milhões de reais: 18 milhões de reais para obrigações atrasadas e 32 milhões de reais para capital de giro.
Relatórios da administradora judicial afirmaram que o aporte não foi comprovado. A partir de 19 de fevereiro de 2026, o grupo também deixou de apresentar parte dos documentos exigidos. Visitas às lojas encontraram unidades fechadas, prateleiras vazias e pontos com funcionários, mas quase sem mercadorias.
A gestão declarou que a interrupção de serviços de internet dificultou o envio dos documentos. Poucos dias após a venda das participações, houve uma reunião sobre o futuro das empresas, e a consultoria financeira Alvarez & Marsal suspendeu o acompanhamento do caso. A rejeição do plano pelos credores antecedeu a falência do grupo.








