Glaidson Acácio dos Santos afirmou à Justiça que investidores com grandes volumes de criptoativos poderiam se unir para provocar quedas de preços e obter ganhos com a desvalorização. Conhecido como “Faraó dos Bitcoins”, ele disse que usava sua posição no mercado para influenciar cotações.
O depoimento foi prestado no processo relacionado à GAS Consultoria, empresa que, segundo o Ministério Público Federal, faria parte de uma organização criminosa estruturada como pirâmide financeira. A acusação afirma que o grupo movimentou mais de 38 bilhões de reais e chegou a cerca de 77 mil vítimas ou credores.
Como funcionaria a operação
Glaidson explicou à Justiça que ocupava a posição de “baleia”, termo usado para identificar investidores que concentram grandes quantidades de determinados ativos digitais. A partir dessa condição, ele poderia buscar outros investidores de grande porte para apostar na queda de uma criptomoeda.
A estratégia envolveria alavancagem, recurso que aumenta a exposição financeira de uma operação. Na descrição apresentada por Glaidson, a combinação entre os participantes pressionaria a cotação para baixo, enquanto os envolvidos lucrariam com o movimento.
A GAS atraía clientes com a promessa de rendimentos acima dos disponíveis no mercado. No processo de falência, mais de 77 mil pessoas e empresas aparecem na relação de credores, com pedidos que somam quase 3 bilhões de reais. Conforme a acusação, os negócios com criptomoedas não gerariam recursos suficientes para pagar os retornos prometidos. A continuidade dos pagamentos dependeria, então, da entrada de novos clientes.
Glaidson declarou ainda que teria criptomoedas suficientes para cobrir os valores cobrados pelos credores. Ele disse que os ativos estão em uma carteira guardada em um dispositivo sob custódia da Polícia Federal, mas não informou a quantia e afirmou não se lembrar da senha. Carteiras desse tipo podem ficar armazenadas sem conexão com a internet, em dispositivos chamados cold wallets.
Depoimento de Mirelis
Mirelis Yoseline Diaz Zerpa também foi ouvida. Ela negou administrar a carteira de clientes e afirmou que acompanhava o mercado e fazia operações com criptomoedas. O MPF sustenta que ela dividia com o marido o comando da organização.
Após a prisão de Glaidson, em 2021, Mirelis deixou o Brasil e foi para os Estados Unidos. Ela ficou foragida até ser detida pela imigração americana em 2024 e depois retornar ao Brasil. A defesa afirma que ela não participava da administração da empresa e que os saques feitos após a prisão serviram para devolver dinheiro aos clientes.
Glaidson está preso desde 2021. Ele também é investigado por suspeita de ordenar a morte de concorrentes em Cabo Frio, onde ficava a sede da empresa. A defesa diz que ele é inocente e atribui a suspensão dos pagamentos a uma ordem judicial.
O processo está na fase final. Se houver condenação, Glaidson, Mirelis e outros 15 réus podem receber, somadas, penas superiores a 40 anos de prisão.







