A inflação dos Estados Unidos pode permanecer acima da meta de 2% ao ano por anos, mesmo com a queda do petróleo para menos de US$ 100. A avaliação é de Gustavo Cruz, estrategista-chefe da Sincra, que vê pressões mais amplas do que os efeitos do conflito no Oriente Médio.
O PCE, principal indicador de inflação americano, avançou 0,2% em julho e acumulou alta de 3,7% em comparação anual. Para Cruz, um eventual acordo imediato entre Irã e Estados Unidos não eliminaria automaticamente os impactos sobre petróleo, gás e derivados.
“Nada impede que petróleo, gás e produtos derivados do petróleo, plásticos, continuem muito elevados para os Estados Unidos e para o resto do mundo nos próximos meses”, afirmou.
Tarifas e juros
O estrategista também apontou a guerra comercial americana como fator relevante para a inflação doméstica. Segundo ele, a política tarifária atual alcança mais países do que no primeiro mandato, quando as medidas estavam concentradas principalmente na China.
Cruz disse que os consumidores americanos passaram a pagar mais por itens que têm componentes, alimentos ou outras partes produzidas fora dos Estados Unidos. Ele também considera prováveis novas rodadas de reajustes, mesmo sem a criação de novas barreiras comerciais.
Na avaliação do estrategista, pesquisas que indicam a possibilidade de o Congresso americano deixar de ter maioria republicana podem levar o governo a concentrar esforços em políticas externas, incluindo tarifas. Ele citou disputas na Justiça envolvendo medidas tarifárias e mencionou o caso da Embraer, que estaria recebendo de volta parte das tarifas que afetaram seus negócios.
Sobre a política monetária, Cruz defendeu cautela do Federal Reserve diante do descompasso entre os investimentos em inteligência artificial, que pressionam os custos no curto prazo, e os ganhos de produtividade esperados no futuro. “O Banco Central americano deveria, talvez, pecar pelo excesso de cautela nesse momento”, afirmou.
Ele disse que a inflação americana permanece acima de 3% desde 2022 e avaliou que juros mais altos ainda seriam necessários para levar o índice de volta ao objetivo. Para o próximo ano, a previsão, no melhor cenário, é de inflação próxima de 2,5%.
Avaliação sobre o Brasil
Sobre os Estados Unidos alcançarem a meta apenas em 2029, Cruz afirmou que o país consegue sustentar essa projeção devido ao crescimento econômico acima do esperado, impulsionado em parte pelos investimentos em inteligência artificial. Mas considerou que tarifas elevadas, gastos fiscais expressivos e juros ainda baixos dificilmente reduziriam o consumo o suficiente.
Na análise sobre o Brasil, o estrategista disse que o país perdeu o momento adequado para iniciar o ciclo de corte de juros. Para ele, as reduções deveriam ter começado em 2025, e não em 2026.
Cruz afirmou que a guerra no Irã alterou o planejamento e deixou o Brasil diante de novas pressões inflacionárias. Entre os efeitos citados estão recordes de insolvência de empresas e pessoas e a concentração de recursos do mercado de capitais em fundos voltados para empresas em situação crítica, em vez de companhias em expansão.








