Peptídeos usados para emagrecer, ganhar músculos, melhorar a pele e retardar o envelhecimento se espalharam em clínicas, academias e grupos de mensagens. Mas muitos produtos são experimentais, não têm autorização para comercialização no Brasil e podem oferecer riscos quando aplicados sem controle sobre sua composição.
Essas moléculas são pequenas sequências de aminoácidos, os mesmos componentes que formam as proteínas. Em geral, atuam como mensageiros químicos do organismo. Entre suas funções naturais estão a regulação da pressão arterial, da saciedade, da dor e da produção de hormônios sexuais.
A diferença entre uma promessa e um tratamento comprovado aparece no desenvolvimento clínico. O GDF-15, por exemplo, chamou atenção depois que pesquisadores identificaram sua atuação em uma região do cérebro ligada à saciedade. Em 2023, camundongos obesos tratados por seis semanas com a dose mais alta perderam 23% do peso corporal.
Os resultados não se repetiram em humanos. Uma versão desenvolvida pela Eli Lilly levou a uma perda de peso cerca de 3% maior que a do placebo após 12 semanas, além de náuseas e vômitos. Em um teste da Novartis com 126 pessoas, a diferença máxima foi inferior a 2 kg após 16 semanas. Náuseas atingiram 71% dos participantes, e vômitos, 40%.
O GDF-15 passou a ser estudado para bloquear a perda de peso indesejada associada ao tratamento do câncer. O imunologista Braian Sousa resume o desafio: “Menos de 5% das moléculas estudadas pela indústria viram medicamentos”.
Produtos ilegais e extrapolação de resultados
As apreensões de peptídeos pela Receita Federal passaram de R$ 5,7 milhões em janeiro para R$ 15,7 milhões em julho de 2026, alta de 173%. Entre os produtos encontrados estão versões ilegais de tirzepatida e retatrutida, além de GHK-Cu, BPC-157, TB-500, ipamorelina e IGF-1 LR3.
A Anvisa informou que parte das remessas não tem identificação, rótulo ou indicação de fabricante. Também há inconsistências entre o conteúdo transportado e as informações declaradas, o que dificulta identificar as substâncias.
A autorização de um peptídeo para uma doença específica não permite seu uso geral. O SS-31, por exemplo, foi aprovado pela FDA para a síndrome de Barth, uma cardiopatia rara e hereditária. Isso não comprova benefício para pessoas saudáveis ou para longevidade.
Performance e estética
CJC-1295, ipamorelina e GHRP-2 estimulam a liberação do hormônio do crescimento. O IGF-1 LR3 atua em uma etapa posterior dessa cadeia. Essas substâncias são consideradas doping e aparecem na lista da Agência Mundial Antidoping. O uso para fins estéticos pode estar associado a diabetes e problemas cardíacos.
TB-500 e BPC-157 são vendidos como regeneradores de tecidos, mas não há evidências suficientes para sustentar essas promessas. Uma análise que reuniu 80 estudos encontrou dados escassos e apenas um trabalho com o composto.
Na estética, o GHK-Cu tem estudos sobre formulações tópicas, como cremes e pomadas. Isso não comprova a segurança de sua aplicação injetável. “Não há nenhum estudo com essa molécula na forma injetável em humanos”, afirma a dermatologista Lilia Guadanhim.
Os riscos incluem reações alérgicas graves, inflamação sistêmica, coceira intensa, palpitações, dor, insônia e visão turva. Em agosto, a Austrália registrou o sétimo caso de lesão hepática aguda relacionado ao uso de um produto não aprovado vendido como retatrutida.
A tesamorelina mostra o caminho esperado para uma terapia: passou pelo desenvolvimento clínico, demonstrou benefício na redução da gordura visceral e foi aprovada nos Estados Unidos para adultos com lipodistrofia associada ao HIV. Não é um tratamento genérico para emagrecimento.
A regra para avaliar essas substâncias é exigir evidências proporcionais às promessas. Estudos em animais não garantem eficácia ou segurança em humanos, e produtos não aprovados não devem ser tratados como medicamentos comprovados.








