NOVA YORK — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a atuação dos Estados Unidos na América Latina durante a abertura da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Em seu discurso, afirmou que o Brasil não aceitará interferência externa e defendeu maior cooperação entre os países da região.
“Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável”, disse Lula. O presidente também afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Esta foi a 11ª vez que ele discursou na Assembleia Geral. Pela tradição mantida desde 1955, Lula foi o primeiro chefe de Estado a falar.
Lula e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não se encontraram nos bastidores do evento, segundo fontes próximas ao presidente brasileiro. Havia expectativa de que os dois se cruzassem na saída de Lula do plenário, quando Trump entraria para fazer seu discurso.
Crime organizado e soberania
O presidente brasileiro afirmou que o país não vai terceirizar a responsabilidade de proteger suas fronteiras e garantir segurança à população. Também rejeitou a necessidade de porta-aviões vigiando águas brasileiras e defendeu ações conjuntas para interromper o fluxo de armas e dinheiro destinado ao crime organizado.
Lula citou a apreensão de drogas, bens e recursos ilícitos e mencionou a lei antifacção, que, segundo ele, prevê penas superiores às aplicadas ao terrorismo. Ele disse ainda que o Brasil está preparado para enfrentar as organizações criminosas.
Em maio deste ano, o Departamento de Estado dos Estados Unidos classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. O secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que os grupos estão entre as organizações criminosas mais violentas do Brasil.
O presidente também criticou a possibilidade de novas sanções americanas contra autoridades brasileiras e afirmou que o país continuará soberano. Na avaliação dele, a democracia brasileira pertence aos brasileiros.
Eleições e política externa
A duas semanas das eleições gerais, marcadas para 4 de outubro, Lula disse que o pleito definirá entre democracia e negacionismo. Ele classificou a votação como transparente e competitiva, mas criticou interesses estrangeiros que, segundo ele, abusam da liberdade de expressão e podem desvirtuar o debate público.
O presidente defendeu o sistema eleitoral brasileiro, o Pix e a regulamentação internacional das big techs. Também afirmou que o Brasil deve registrar novo recorde de exportações neste ano, apesar do tarifaço contra a economia.
Lula criticou a atuação dos Estados Unidos na Venezuela e afirmou que o povo venezuelano deve decidir seu próprio destino. Também questionou a decisão do governo de Daniel Ortega, na Nicarágua, de não realizar eleições.
Guerras e atuação da ONU
Lula disse que este é o momento mais crítico das Nações Unidas desde 2003 e afirmou que o Conselho de Segurança falha na proteção de populações atingidas por guerras. Para o presidente, a guerra representa a falência total da política.
Ao falar sobre Gaza, Lula criticou o genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças e também condenou os atos terroristas do Hamas. Ele afirmou que o ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial.
O presidente ainda elogiou a resolução aprovada pela Assembleia Geral da ONU em março de 2026, que reconhece o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o crime mais grave contra a humanidade. No encerramento, defendeu escolhas entre multilateralismo e unilateralismo, democracia e extremismo, soberania e subordinação.









