Uma rede de anúncios enganosos no Telegram usa fotos reais de mulheres ucranianas, muitas delas integrantes ou ex-integrantes do Exército da Ucrânia, para divulgar falsas acusações de estupro, sequestro e execução. Os links prometem vídeos com provas dos abusos, mas levam a canais favoráveis à guerra da Rússia.
Foram identificadas imagens de mais de 20 mulheres usadas como isca. Sete delas foram ouvidas. Entre as vítimas está Keti Leshkasheli, médica da Geórgia que serviu nas Forças Armadas da Ucrânia. Há cerca de três anos, depois de voltar da linha de frente, ela descobriu que uma foto sua, feita em Avdiivka, era usada em publicações que afirmavam que ela havia sido capturada e estuprada.
“Fiquei sabendo que havia aparecido um vídeo dizendo que algumas garotas e eu tínhamos sido capturadas”, contou Leshkasheli. A imagem havia sido tirada anos antes, quando ela usava uniforme militar. Avdiivka, cidade no leste da Ucrânia, está sob ocupação russa.
A análise de frases recorrentes e nomes falsos encontrou mais de 6,5 mil anúncios com alegações de violência sexual. Eles foram publicados por cerca de 1,7 mil canais de pequeno porte e somaram mais de 65 milhões de visualizações. A maioria usava fotos verdadeiras, acrescentava acusações falsas e prometia vídeos que não existiam.
Como a rede funciona
Os anúncios também atribuíam às mulheres torturas contra soldados russos ou a defesa da morte de crianças russas. As mensagens incluíam insultos étnicos e de gênero e levavam a canais privados, grupos ou páginas externas. Conteúdos semelhantes foram encontrados no TikTok, no YouTube e na rede social russa VKontakte.
Valentyna Shapovalova, pesquisadora de desinformação de gênero, afirmou que a campanha “vende a promessa de violência sexualizada como entretenimento” para atrair e monetizar a atenção dos usuários. Segundo ela, o conteúdo também contribui para humilhar ucranianos e normalizar a violência sexual contra o inimigo.
Seis canais da rede ultrapassaram 1 milhão de inscritos. Três dos maiores foram criados em um intervalo de 72 horas, no início da invasão russa em grande escala, em fevereiro de 2022.
O canal Pryamoy Efir Novosti aparece associado a mais de 1 mil anúncios analisados e tem hoje mais de 4 milhões de inscritos. Antes, usava o nome “MVD 18+”, referência a conteúdo adulto. O canal se apresenta como veículo de notícias e reproduz conteúdos da mídia estatal russa.
Os três canais descrevem avanços militares como libertações, tratam a União Europeia e o Reino Unido como agressores e celebram baixas ucranianas. Dois deles usam insultos étnicos contra ucranianos.
Novos anúncios continuam surgindo
O Pryamoy Efir Novosti informou que cobra no mínimo 500 mil rublos (R$ 29,9 mil) por anúncio. Os outros dois canais disseram cobrar cerca de 40 mil rublos (R$ 2.400) cada. O canal chamou as informações de falsas e afirmou que elas “não correspondem à realidade”.
Quase 5,4 mil das mais de 6,5 mil publicações identificadas foram removidas. Ainda assim, novos anúncios continuam aparecendo. Alguns repetem textos idênticos, com os mesmos erros de digitação, em várias contas ao mesmo tempo.
Yuliia Mala afirmou que denunciou e bloqueou contas, mas que o volume é grande. Leshkasheli também relatou ter feito várias denúncias ao Telegram e disse que é quase impossível agir contra o material.
Oleksandra, cidadã russa que se voluntariou para lutar pela Ucrânia, encontrou fotos suas em publicações de 2022, 2023 e 2024. Segundo ela, imagens manipuladas chegaram a colocar digitalmente seu rosto sobre um corpo nu.
Desde fevereiro de 2026, o órgão regulador de mídia da Rússia restringe o Telegram no país, sob a acusação de descumprimento da legislação russa. O uso do aplicativo, porém, continua por meio de VPNs.
Lesia Palahniuk, conselheira regional de Chernivtsi, teve uma foto usada em publicações com linguagem obscena. “As mulheres precisam saber que não estão sozinhas, que têm apoio”, afirmou. “Elas não fizeram nada de errado.”









