GUAYAQUIL — Mais de 300 mil pessoas deixaram suas casas no Equador nos últimos três anos por causa da violência, segundo a Agência da ONU para Refugiados (Acnur) e a Defensoria Pública. Famílias relatam ameaças de morte, extorsões, tentativas de recrutamento por grupos criminosos e assassinatos de parentes.
Em muitos casos, os imóveis abandonados são saqueados pelas gangues para financiar a compra de drogas ou usados para esconder vítimas de sequestro, de acordo com moradores e policiais. Organizações de direitos humanos afirmam que o número de deslocados pode ser ainda maior.
Uma das áreas mais afetadas é Nueva Prosperina, distrito de Guayaquil. No ano passado, uma disputa entre facções da gangue Los Tiguerones matou 22 pessoas. A polícia local estima que metade das famílias da região tenha sofrido algum tipo de extorsão.
O chefe da polícia de Nueva Prosperina, Gino Pillajo, afirmou que muitos casos não são denunciados por medo. Para receber informações, policiais trabalham com líderes comunitários e instalaram códigos QR em lojas, permitindo denúncias anônimas. Agentes também acompanham moradores durante a saída de suas casas e registram os imóveis cujos proprietários estão ausentes.
Francesco Volpi, do Conselho Norueguês para Refugiados, comparou o efeito das ameaças digitais ao de explosivos: “Uma mensagem no WhatsApp tem quase o mesmo impacto que uma bomba”.
Um comerciante de 45 anos deixou Nueva Prosperina depois que seus filhos receberam ameaças de morte de grupos que tentavam recrutá-los. Ele também relatou intimidações de pessoas que identificou como policiais.
Violência em outras regiões
O deslocamento também atinge comunidades indígenas Chachi próximas à fronteira com a Colômbia, que abandonaram temporariamente seus territórios por ameaças de mineradores ilegais, segundo a Defensoria Pública. Em Babahoyo, na província de Los Ríos, comércios passaram a fechar mais cedo. Na província amazônica de Sucumbíos, famílias deixam suas terras para evitar que grupos criminosos convençam jovens a se juntar a eles.
O Conselho Norueguês para Refugiados classifica o Equador como o terceiro país com maior deslocamento interno da região, atrás do Haiti e da Colômbia. O Comitê Permanente de Defesa dos Direitos Humanos de Guayaquil atribui o cenário ao avanço persistente da violência.
O presidente Daniel Noboa assumiu o cargo em 2023 prometendo combater os grupos criminosos e o papel do país como rota de trânsito de drogas. O comitê de direitos humanos afirma que mortes e prisões de líderes provocaram a fragmentação de grupos em facções rivais que disputam território.
O país registrou 9.216 mortes violentas no ano passado, com taxa de homicídios de 51 por 100 mil habitantes. O governo afirma que sua estratégia está reduzindo os grupos criminosos e que as mortes caíram 8% entre janeiro e julho deste ano, na comparação com o mesmo período de 2025.
Funcionários do governo reconheceram o problema, mas disseram não saber qual órgão deve cuidar do deslocamento forçado. Para Billy Navarrete, presidente do comitê de direitos humanos de Guayaquil, a falta de reconhecimento legal impede medidas de proteção, monitoramento e assistência às comunidades afetadas.
“Temos que permanecer em silêncio. Somos cúmplices silenciosos”, disse um morador de Nueva Prosperina.








