O El Niño, marcado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, pode trazer efeitos que vão além das condições meteorológicas. Episódios de calor intenso, baixa umidade e queimadas exigem mais do organismo para controlar a temperatura e podem sobrecarregar o coração e o cérebro.
Efeitos sobre o coração
Em temperaturas elevadas, o corpo aumenta o fluxo de sangue para a pele e a produção de suor para dissipar o calor. Com isso, o coração acelera para ajudar a manter a pressão arterial. A transpiração excessiva, quando não é acompanhada pela reposição de líquidos, provoca perda de água e de eletrólitos, como sódio e potássio.
Esse processo pode causar desidratação, deixar o sangue mais concentrado e alterar a atividade elétrica do músculo cardíaco. A combinação entre vasos dilatados, batimentos acelerados e maior concentração do sangue também aumenta a necessidade de oxigênio do coração.
“Quando a temperatura sobe, o coração precisa trabalhar mais justamente em um momento em que a desidratação pode reduzir o volume circulante”, explica Nilton Carneiro, cardiologista do Hospital Santa Catarina - Paulista. Segundo o médico, a perda de eletrólitos pode favorecer alterações do ritmo cardíaco.
Em pessoas com condições anteriores, como aterosclerose, esse desequilíbrio pode elevar o risco de arritmias, taquicardia, desmaios e infarto do miocárdio. Julianny Freitas, cardiologista da Casa de Saúde São José, afirma que os atendimentos relacionados ao calor excessivo aumentam e que a desidratação pode levar o coração a um estado de sobrecarga.
Exaustão e golpe de calor
A exposição intensa ao calor pode causar exaustão, com suor excessivo, fraqueza, tontura, náuseas e pele fria ou úmida. Nessa situação, a orientação é procurar um local fresco, ingerir líquidos, afrouxar as roupas e deitar com as pernas elevadas.
O golpe de calor, também chamado de choque térmico ou intermação, é uma emergência médica. A temperatura corporal ultrapassa 40ºC, e podem ocorrer pele quente e seca, confusão mental, perda de consciência e convulsões. É necessário chamar socorro urgente e resfriar a pessoa com água fria e ventilação. Se ela estiver desacordada ou confusa, não deve receber líquidos.
Riscos neurológicos e fumaça
O calor e a perda de líquidos também podem reduzir o fluxo sanguíneo no cérebro, favorecer desequilíbrios eletrolíticos e aumentar a propensão à formação de coágulos. Maurício Hoshino, neurologista do Hospital Santa Catarina - Paulista, alerta que o golpe de calor pode causar alteração da consciência, convulsões, edema cerebral e outras complicações.
Temperaturas elevadas estão associadas ao aumento de casos de AVC, tanto isquêmico quanto hemorrágico, além de pior prognóstico e maior mortalidade. Crises epilépticas, enxaqueca, sintomas de Parkinson e esclerose múltipla também podem piorar. Em pessoas com demência, podem surgir confusão mental e declínio cognitivo.
A fumaça das queimadas libera partículas finas que chegam às regiões profundas do sistema respiratório e desencadeiam inflamações. Esse mecanismo pode facilitar a coagulação do sangue e aumentar os riscos cardiovasculares e cerebrovasculares em pessoas suscetíveis.
Como reduzir os riscos
As medidas de proteção incluem manter a hidratação, evitar exercícios intensos e exposição direta ao sol entre 10h e 16h, usar roupas leves, manter os ambientes ventilados ou climatizados, escolher uma alimentação leve e evitar álcool.
Tontura, fraqueza intensa, dor de cabeça, náuseas, cãibras, palpitações e queda de pressão indicam a necessidade de interromper a exposição ao calor, descansar e se hidratar. Confusão mental aguda, convulsões, desmaios, dor no peito, falta de ar importante, perda de força ou alteração na fala exigem avaliação médica imediata.








