O SUS deverá oferecer gratuitamente medicamentos análogos do GLP-1, conhecidos como canetas emagrecedoras, mas ainda não há data para o início da distribuição. O anúncio foi feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo ministro Alexandre Padilha na última quinta-feira, 17.
Antes da implementação, o Ministério da Saúde terá de definir quem poderá receber os remédios, qual princípio ativo será utilizado e como o tratamento será financiado. A medida também depende da avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec).
Oferta deve ser direcionada
Os critérios de acesso ainda não foram apresentados. Padilha afirmou que a distribuição será feita de forma responsável e para pessoas com indicação médica. Entre os grupos citados estão pacientes que aguardam cirurgia bariátrica, pessoas com obesidade e problemas cardíacos e mulheres com histórico de câncer de mama.
Para Alexandre Hohl, presidente da Associação Brasileira para Estudos da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), limitar o fornecimento pode criar uma barreira. Ele defende a inclusão dos medicamentos para pessoas com obesidade de maneira universal e afirma que o SUS deve manter tratamento igualitário.
Já Bruno Gualano, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), considera mais adequado começar com um público restrito. Segundo ele, a incorporação ampla poderia pressionar o orçamento diante das incertezas sobre a duração do tratamento.
No ano passado, a Conitec recomendou que semaglutida e liraglutida não fossem incorporadas ao SUS. Entre os motivos estavam o impacto financeiro e a falta de definição sobre por quanto tempo os pacientes precisariam usar os medicamentos. Em 2025, o custo estimado para a incorporação das canetas era de cerca de R$ 8 bilhões anuais.
Estudo avalia semaglutida
O Ministério da Saúde conduz o projeto Real-Bari, que acompanha 250 pacientes com obesidade grave ou associada a outras doenças no Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre. Os participantes, indicados para cirurgia bariátrica, receberão semaglutida durante um estudo previsto para durar dois anos.
A pesquisa vai analisar resultados clínicos, segurança e impacto financeiro na rede pública. Para Gualano, a oferta deve seguir as evidências produzidas pelo estudo, sem ser ampliada automaticamente para toda a população.
A queda da patente do Ozempic, em março de 2026, pode reduzir preços e aumentar a variedade de marcas. O medicamento contém semaglutida e é indicado oficialmente para diabetes tipo 2, com dose de até 1 miligrama por semana. Já o Wegovy é indicado para obesidade e pode chegar a 2,4 mg semanais.
Hohl afirma que parte dos pacientes pode precisar de doses de 1,7 mg ou 2,4 mg para obter resultados satisfatórios. Mesmo com a concorrência, Gualano estima que o tratamento ainda custe em torno de R$ 14 mil ao ano por paciente.
Tratamento pode durar longo prazo
Especialistas também apontam que a obesidade é uma doença crônica e recidivante. As evidências atuais indicam que a interrupção dos análogos do GLP-1 pode levar à recuperação do peso, o que torna incerta a duração do tratamento e aumenta os custos para o SUS.
Para Gualano, políticas públicas de prevenção também são necessárias, com alimentação saudável e acessível, estímulo à atividade física e ações para reduzir fatores que favorecem o ganho de peso. Ele afirma que apenas o medicamento não resolve o problema da obesidade.
Os especialistas defendem que a decisão considere evidências científicas, segurança e custo-benefício. O andamento dos estudos, porém, pode levar tempo até que o governo defina o modelo de incorporação e os critérios de acesso.








