TEXAS — O governo dos Estados Unidos liberou a bilionésima mosca estéril para tentar conter a expansão da mosca-varejeira. Os insetos são produzidos em instalações no México e no Panamá, enquanto uma nova unidade está sendo construída no Texas.
A estratégia usa machos esterilizados por radiação. Como as fêmeas selvagens acasalam apenas uma vez, o cruzamento com esses machos não gera descendentes e reduz a população da praga na área infestada.
A mosca deposita ovos em animais de sangue quente, incluindo humanos. As larvas se prendem ao tecido vivo e podem provocar infecções e, em alguns casos, morte. A praga não é considerada um problema de segurança alimentar, mas pode afetar o abastecimento de alimentos.
Casos e risco de expansão
A mosca-varejeira era considerada erradicada nos Estados Unidos, no México e na maior parte da América Central. Em 2023, porém, rompeu as linhas de contenção no Darién, faixa de floresta entre a Colômbia e o Panamá, e avançou para o norte.
Em junho, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos confirmou os primeiros casos no país em anos. O USDA informou que houve menos de 50 registros nos Estados Unidos neste ano. A secretária de Agricultura, Brooke Rollins, afirmou que foram 48 casos no total: 30 em junho, 14 em julho e 4 em agosto. Segundo ela, havia três casos ativos e nenhum registro em bovinos havia sido identificado por mais de um mês.
O entomologista Dave Taylor alertou que a quantidade pode crescer rapidamente. Uma fêmea adulta vive cerca de 21 dias e pode colocar até 3.000 ovos. De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, os ovos podem se transformar em moscas adultas em menos de uma semana.
Em 1971, foram confirmados 473 casos. No ano seguinte, o número chegou a quase 100.000. Taylor afirmou: “Não estou dizendo que isso vai acontecer desta vez, mas pode haver muitos, muitos, muitos mais casos nesta mesma época no ano que vem.”
A praga infestou milhares de animais no Panamá e no México. Governos da região adotaram armadilhas, cães farejadores, drones e a liberação de moscas estéreis. O esforço também inclui o monitoramento da fauna, a inspeção de animais e a colaboração com pecuaristas.
Limite de produção
Para combater a infestação, os Estados Unidos precisam de 400 a 500 milhões de moscas por semana, segundo Rollins. Atualmente, a unidade do Panamá consegue produzir 100 milhões por semana. A fábrica inaugurada em junho em Chiapas, no México, deverá atingir o mesmo volume, mas o USDA estima que serão necessários cerca de seis meses para chegar à capacidade máxima.
A antiga fábrica mexicana funcionava desde 1976 e foi fechada em 2012. Depois disso, restou apenas a unidade do Panamá para produzir moscas-varejeiras estéreis.
O USDA começou a construir uma fábrica no Texas em abril. A previsão é que ela seja inaugurada no final do próximo ano e produza 100 milhões de moscas por semana até o final de 2027. Até o final de 2028, a capacidade poderá aumentar em mais 300 milhões por semana.
Em julho, o departamento anunciou investimento de US$ 25 milhões em uma unidade de dispersão de moscas estéreis no Arizona, mas não informou quando ela começará a funcionar. Mesmo com a fábrica do Texas em plena produção, a capacidade deve continuar abaixo da marca de 500 milhões por semana usada no passado, porque as instalações do México e do Panamá também atendem esses países.
Além disso, metade dos insetos produzidos é formada por fêmeas estéreis. Para ampliar a eficiência, os Estados Unidos testam no Panamá a Novofly, uma linhagem geneticamente modificada composta apenas por machos. O USDA informou que os testes de campo estão em andamento.
Preparo para novos surtos
A secretária Brooke Rollins disse que o governo aumentou rapidamente a produção para proteger o rebanho bovino americano. Já Joe Annelli, ex-consultor sênior do Serviço de Inspeção de Saúde Animal e Vegetal do USDA, afirmou que o governo costuma reagir apenas quando a ameaça se torna imediata.
Dave Taylor morreu em 6 de agosto, aos 71 anos. Ele havia trabalhado por décadas no combate à mosca-varejeira e disse estar frustrado com a perda de avanços obtidos ao longo de 40 anos.
Em janeiro, o USDA lançou o Screwworm Grand Challenge, com oportunidade de financiamento de 100 milhões de dólares para projetos voltados à produção de moscas estéreis. Maximillian Seunik, diretor executivo da Screwworm Free Future, defendeu a aceleração de novas tecnologias e afirmou que a Novofly pode ampliar a capacidade americana de produção.








