O Japão chegou a 107.677 pessoas com pelo menos 100 anos. A marca equivale a 87,51 centenários para cada 100 mil habitantes e representa 56 anos seguidos de crescimento desse indicador, segundo o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar japonês.
Fuyo Kishimoto, de 114 anos, é a mulher mais velha do país. Hikaru Kato, de 112, é o homem mais longevo. Com esses números, o Japão mantém a maior proporção de centenários do mundo.
A longevidade japonesa é associada a uma combinação de alimentação equilibrada, atividade física, cuidados médicos, vínculos sociais e propósito de vida. Para a bióloga Mayana Zatz, professora da Universidade de São Paulo, 55% do envelhecimento dependem da genética; o restante está relacionado ao ambiente.
Mudanças na saúde e na alimentação
Em 1963, quando o governo começou a registrar oficialmente os centenários, o Japão tinha 153 pessoas nessa faixa etária. Naquele período, o país enfrentava taxas elevadas de tuberculose, acidente vascular cerebral e câncer de estômago. Depois da Segunda Guerra Mundial, encerrada em 1945, houve investimentos em saneamento, higiene e atendimento universal de saúde.
A mortalidade por várias doenças caiu ao longo das décadas. A alimentação também mudou: passou a incluir mais fontes de energia e menos sal, além de proteína animal em quantidade moderada. Peixes, vegetais, grãos e frutas continuam importantes na dieta.
O consumo menor de carnes e laticínios reduz a ingestão de gordura saturada, enquanto os frutos do mar fornecem gorduras poli-insaturadas, como o ômega-3. O chá verde sem açúcar também faz parte dos hábitos estudados, embora os especialistas ressaltem que não existe um alimento único responsável pela longevidade.
Propósito e movimento
O conceito japonês de ikigai representa uma razão para viver e levantar da cama. Pode estar relacionado ao trabalho, ao cuidado com a família, a um hobby, ao jardim ou à participação na comunidade. Estudos associaram a presença de propósito a menor risco de morte, mas as pesquisas são observacionais e não provam que o ikigai, sozinho, prolongue a vida.
A atividade física também aparece como um dos pilares. Em 1928, o governo lançou o Radio Taiso, programa de ginástica transmitido pelo rádio. Em 2011, o país criou o Projeto Vida Inteligente, com metas como caminhar 10 minutos por dia, melhorar a alimentação e fazer exames de rotina.
A especialista Isabela Trindade afirma que a independência na velhice depende de exercícios, consumo de proteínas e prevenção de quedas. Chegar aos 100 anos, portanto, não significa necessariamente manter a autonomia.
O papel da genética e das condições sociais
Depois dos 90 anos, e especialmente após os 100, a genética ganha mais peso na explicação da longevidade. Pessoas que ultrapassam os 110 anos podem ter características genéticas associadas a maior resistência a doenças e alterações do envelhecimento.
Ainda assim, hábitos e cuidados médicos continuam relevantes. A longevidade também é influenciada por escolaridade, renda, segurança, ambiente, acesso a alimentos de qualidade e serviços de prevenção e tratamento.
A conclusão dos especialistas é que viver mais não depende de um suplemento, alimento ou hábito isolado. A longevidade saudável resulta da interação entre biologia, rotina, ambiente, relações sociais e acesso ao cuidado.








