Passar horas no celular pode tornar as notificações e os vídeos mais atraentes do que atividades que antes davam prazer. Esse efeito está relacionado à chamada saliência de incentivo: estímulos neutros se tornam desejáveis por causa da recompensa associada a eles.
O córtex orbitofrontal participa do controle dos impulsos e transforma sinais biológicos em experiências subjetivas de prazer. Com o contato excessivo com as telas, a dopamina é liberada sem esforço, por exemplo, ao receber uma notificação ou avançar para outro vídeo. A atenção fica mais facilmente capturada, aumentando a vontade de continuar no aparelho.
Depois de um pico imediato de dopamina, o nível do neurotransmissor pode cair abaixo do patamar anterior. Com isso, o sistema nervoso tende a interpretar que é preciso buscar mais estímulos. Esse mecanismo é diferente do prazer hedônico, que aparece depois de uma realização e envolve busca, motivação pessoal e a experiência efetiva de satisfação.
Atividades que podem ocupar esse espaço
O exercício físico e as experiências artísticas estão entre as atividades associadas ao prazer hedônico. A prática física pode liberar dopamina em cerca de 30 a 40 minutos. Para Gustavo Gattino, musicoterapeuta e pesquisador da relação entre música, cérebro e desenvolvimento humano, isso pode gerar bem-estar sem levar à necessidade de passar o dia inteiro se exercitando.
Música, teatro, dança, artes visuais e outras expressões artísticas também podem estimular a liberação de dopamina, serotonina e noradrenalina, neurotransmissores ligados ao humor e ao bem-estar. Segundo Gattino, atividades cujo resultado não é totalmente previsível podem liberar dopamina aos poucos e produzir uma resposta mais significativa quando há uma surpresa positiva.
O contato com a natureza é outra possibilidade. Como seu ritmo é diferente e não pode ser totalmente controlado, a experiência ativa o córtex somatossensorial, que envolve os sentidos na interação com o ambiente.
Estratégias para diminuir o uso
Ainda não há consenso sobre interromper o celular de uma vez ou reduzir o uso gradualmente. Alguns estudos apontam benefícios da redução progressiva em até três semanas, enquanto outros não identificaram diferenças significativas entre as estratégias.
Gattino afirma que não existe uma fórmula única, porque a interpretação do prazer varia de pessoa para pessoa. Entre as medidas que podem ajudar estão deixar a tela em escala de cinza, desativar notificações não urgentes, usar limites diários, estabelecer áreas sem celular — como a mesa de jantar e o quarto — e manter o aparelho em outro cômodo durante o sono.
Também é útil observar em quais momentos o celular aparece na rotina. A tela pode estar ocupando o lugar de uma atividade física ou de uma conversa com um familiar. Nesses períodos, alternativas como ler, fazer crochê ou resolver um caça-palavras podem oferecer outra forma de preencher o tempo livre.








