Os estudos EVOKE e EVOKE+ não identificaram benefício clínico significativo da semaglutida oral para desacelerar a doença de Alzheimer sintomática em estágio inicial. Os ensaios avaliaram a evolução cognitiva e funcional dos participantes em comparação com um grupo que recebeu placebo.
As duas pesquisas, randomizadas e de fase 3, reuniram 3.808 participantes, com idade média de aproximadamente 72 anos. Depois de 104 semanas, não foi observada diferença estatisticamente significativa entre os grupos no Clinical Dementia Rating – Sum of Boxes, escala usada para acompanhar a progressão do Alzheimer.
Biomarcadores não indicaram melhora clínica
Os estudos registraram mudanças em alguns biomarcadores relacionados à doença. Essas alterações, porém, não se converteram em benefício clínico demonstrável para os participantes.
A semaglutida pertence à classe dos agonistas do receptor de GLP-1, medicamentos usados no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. A possibilidade de aplicação contra doenças neurodegenerativas ganhou força porque diabetes, hipertensão arterial, dislipidemia, obesidade e doença cardiovascular estão associados a maior risco de comprometimento cognitivo.
Os receptores de GLP-1 também estão presentes em regiões do sistema nervoso central relacionadas à memória e à cognição. Em modelos experimentais, estudos com liraglutida apontaram proteção de receptores de insulina e sinapses, além de melhora em alterações de memória. Em primatas não humanos, foi observada proteção parcial contra alterações associadas à exposição a beta-amiloide.
Associação não é prova de tratamento
Pesquisas observacionais, principalmente com pessoas que têm diabetes tipo 2, encontraram associação entre o uso de agonistas de GLP-1 e menor ocorrência de comprometimento cognitivo ou demência. Esses estudos, no entanto, não comprovam que os medicamentos sejam a causa direta de uma eventual redução do risco.
O controle da glicose, a perda de peso e a redução do risco cardiovascular podem influenciar esse resultado. Por isso, os ensaios clínicos buscaram verificar se o medicamento teria efeito em pessoas que já apresentavam Alzheimer inicial.
Os resultados não encerram as pesquisas sobre GLP-1 e neurodegeneração. Diferentes moléculas, momentos de intervenção ou populações podem apresentar resultados distintos. Até agora, porém, os dados não sustentam o uso de semaglutida, liraglutida ou outros medicamentos da classe para prevenir ou tratar diretamente a doença de Alzheimer.








