ÍNDIA — As vendas de medicamentos para perda de peso chegaram a apenas cerca de 20% dos US$ 261 milhões projetados pela Nomura Holdings para o mercado indiano em 2026. Os dados são da consultoria Pharmarack. A demanda perdeu força depois de uma alta inicial, mesmo com o fim da patente da semaglutida em março e a chegada de versões genéricas às farmácias.
Em julho, cerca de três dezenas de produtos estavam disponíveis, com preços a partir de US$ 14 por mês. As versões genéricas incluem medicamentos baseados no princípio ativo usado em produtos como Ozempic e Wegovy, da Novo Nordisk.
A redução do preço, porém, não foi suficiente para ampliar o uso na velocidade esperada. O pesquisador Chittaranjan Yajnik, de Pune, afirma que a adesão depende de fatores como histórico geracional, cultura, geografia e condição socioeconômica. “Não se trata apenas de preço”, disse.
A percepção de risco também limita a procura. Dados citados no texto indicam que 101 milhões de adultos indianos têm diabetes, enquanto outros 136 milhões estão na faixa de pré-diabetes. A obesidade abdominal alcançaria cerca de 40% dos adultos, acima dos 28,6% registrados quando o cálculo considera o índice de massa corporal.
Esse cenário pode dificultar campanhas baseadas apenas na ideia de remédio para emagrecer. Parte da população pode apresentar risco metabólico sem se reconhecer como obesa. O estigma relacionado ao peso também aparece entre as barreiras ao tratamento, associado tanto à ideia de prosperidade quanto à noção de falta de disciplina.
Usuários discutem em grupos de WhatsApp e fóruns do Reddit maneiras de aplicar as injeções sem que familiares saibam. Para mulheres de famílias mais tradicionais, decisões sobre gastos e tratamentos de saúde podem envolver maridos, pais ou sogros.
Dúvidas sobre os genéricos
A confiança nos produtos também se tornou um obstáculo. Em julho, a Dr. Reddy’s informou que determinados lotes de semaglutida estavam fora das especificações por causa de um problema relacionado ao princípio ativo. A empresa interrompeu novas remessas enquanto investigava o caso. Até junho, havia vendido 39 mil unidades na Índia, contra 63 mil da Sun Pharma.
Torrent Pharmaceuticals e USV também recolheram lotes para avaliação. O médico Rajiv Kovil, de Mumbai, afirmou que a expectativa de uma revolução provocada pelos genéricos não se confirmou e que a adoção será mais lenta.
A Índia tem uma população de 1,4 bilhão de pessoas, grande número de diabéticos e uma das maiores prevalências de obesidade do mundo. Analistas chegaram a estimar que as vendas de medicamentos para emagrecimento poderiam alcançar US$ 1 bilhão por ano até 2030. Os resultados iniciais, no entanto, mostram que o tamanho do público potencial não garante um mercado equivalente.
No Brasil, o mercado ainda está em expansão. A IQVIA calcula que a receita com GLP-1 cresceu 110,5% nos 12 meses até abril. O Itaú BBA estima que esses medicamentos representem 12% da receita da RD Saúde. Na Índia, a combinação de estigma, baixa percepção do risco, dúvidas sobre os genéricos e fatores econômicos reduziu o ritmo de adesão.









