Centenas de bilhões de dólares aplicados em inteligência artificial nos Estados Unidos ainda não resultaram em uma aceleração correspondente do crescimento econômico. A produtividade avançou, mas o PIB real continua próximo da média registrada nas últimas duas décadas, de 2,3%, aponta uma análise da Gavekal, empresa de análise financeira sediada em Hong Kong.
Desde o lançamento do ChatGPT, no fim de 2022, a produtividade do trabalho aumentou em 13 dos últimos 14 trimestres. O avanço se concentrou principalmente no setor de serviços, onde a tecnologia tem potencial para permitir que os trabalhadores realizem mais tarefas em menos tempo.
Para a Gavekal, porém, eficiência maior por trabalhador não garante aumento equivalente na produção total. A oferta de mão de obra está menor, enquanto a expansão dos data centers e da infraestrutura de computação ligada à IA eleva a procura por equipamentos, energia, bens e serviços.
Menos trabalhadores disponíveis
A análise relaciona a redução da força de trabalho a mudanças demográficas e à política migratória do governo de Donald Trump. Medidas restritivas podem diminuir a entrada líquida de imigrantes e, com isso, limitar o crescimento da população economicamente ativa.
Estudos citados pela Gavekal indicam que o crescimento da população americana pode alcançar níveis historicamente baixos neste ano. Como o aumento populacional influencia o tamanho potencial da força de trabalho, a desaceleração demográfica reduz a capacidade de expansão da economia.
Outro fator é o envelhecimento. A participação geral no mercado de trabalho vem caindo desde o terceiro trimestre de 2023, enquanto o índice entre pessoas de 25 a 54 anos permaneceu relativamente estável. Projeções do Congressional Budget Office indicam que a tendência deve continuar com a saída de gerações mais velhas, incluindo baby boomers e integrantes da Geração X.
O resultado é um descompasso entre uma economia mais produtiva por trabalhador e uma quantidade menor de pessoas disponíveis para atender à demanda. Nesse ambiente, o aumento da procura pode ser compensado por compras externas.
Importações e inflação
Os Estados Unidos ampliam a construção de data centers e a infraestrutura de energia, mas dependem de outros países para obter insumos importantes. Chips e componentes tecnológicos são importados da Coreia do Sul e de Taiwan. Assim, parte do efeito dos investimentos em computação aparece no aumento das importações, e não na produção doméstica.
A restrição na oferta de trabalhadores também pode manter a pressão sobre os preços. Se a demanda crescer mais rapidamente que a capacidade de produção interna, os ganhos de produtividade proporcionados pela IA podem não ser suficientes para eliminar os gargalos.
Esse quadro cria um dilema para o Federal Reserve. Caso a inflação continue pressionada, o banco central pode manter ou elevar os juros, com o risco de reduzir o ritmo dos investimentos em inteligência artificial. Uma política monetária mais rígida poderia pressionar ações e títulos americanos, embora favorecesse o dólar.
Já uma postura expansionista tenderia a sustentar os preços dos ativos, mas poderia enfraquecer a moeda e ampliar o risco de saída de capital. Para a Gavekal, os sinais recentes e os comentários de Kevin Warsh em Jackson Hole indicam que o Federal Reserve parece se preparar para priorizar o controle da inflação.
Nesse cenário, a IA pode aumentar de forma relevante a produção por trabalhador sem provocar uma expansão semelhante do PIB ou uma redução da inflação. O desafio para o banco central será avaliar se os ganhos de eficiência conseguem superar os limites impostos por uma força de trabalho menor.








