A adoção de stablecoins ocorre por razões diferentes nos mercados emergentes. Enquanto bancos de Wall Street estudam o uso do dólar digital para acelerar a liquidação entre instituições, trabalhadores autônomos no Vietnã e famílias nas Filipinas recorrem à tecnologia para receber pagamentos e remessas com mais rapidez.
Em países desenvolvidos, onde o acesso bancário é amplo e os pagamentos domésticos funcionam, as stablecoins competem por custos menores, velocidade e programabilidade. Nos mercados emergentes, elas também ocupam espaços deixados pelo sistema financeiro tradicional, como acesso a uma moeda forte, proteção contra a inflação e transferências internacionais.
O índice global de adoção de criptoativos da Chainalysis de 2025 colocou a Índia na liderança, com Paquistão, Vietnã e Brasil entre os cinco primeiros. A região Ásia-Pacífico teve alta de 69% no valor recebido on-chain em um ano. Na América Latina, o crescimento foi de 63%.
Uma pesquisa da Castle Island Ventures com usuários de Brasil, Índia, Indonésia, Nigéria e Turquia apontou que poupar em dólar, enviar remessas e liquidar comércio internacional estão entre os principais usos, além do trading.
Na América Latina, a stablecoin aparece principalmente como proteção patrimonial. Na Argentina, o ativo digital passou a funcionar como uma versão digital do hábito de guardar dólares. No Brasil, mais de 90% dos fluxos de criptoativos envolvem stablecoins, segundo o Banco Central. O uso é descrito como transacional e patrimonial, com acesso ao dólar e a produtos internacionais entre as finalidades.
No México, a remessa é o principal caso de uso. Já na Ásia emergente, o instrumento é usado para movimentar renda. As Filipinas recebem mais de US$ 35 bilhões por ano em remessas de trabalhadores no exterior. No Vietnã, negociações peer-to-peer de dólar digital registram prêmio de 3% a 5%, enquanto os recursos circulam para pagar freelancers, serviços internacionais e pequenos negócios.
Na Indonésia, o uso corporativo cresce com a redução do tempo de liquidação do comércio exterior no corredor com Singapura. A análise resume a diferença da seguinte forma: na América Latina, a stablecoin funciona como cofre; na Ásia, como esteira para renda e comércio.
O desafio, porém, não termina na transferência do dólar digital. A remessa precisa ser convertida em moeda local, como peso, baht, rupia ou real. Empresas de pagamentos precisam manter liquidez disponível em diferentes países, sem necessariamente imobilizar recursos em contas pré-fundeadas em cada mercado.
Para negócios brasileiros que se expandem pela América Latina ou pela Ásia, a questão central é identificar a função da stablecoin em cada país. Na Argentina, ela protege; nas Filipinas, sustenta famílias; na Indonésia, liquida o comércio. O uso do mesmo ativo varia conforme a moeda, a demanda e a estrutura local.







