VENEZUELA — A inflação e a perda de valor do bolívar levaram o Banco Central da Venezuela (BCV) a intervir novamente no sistema financeiro. As medidas, que entram em vigor nesta terça-feira, 15, aumentam a remuneração dos depósitos, reduzem a liquidez dos bancos e ampliam as punições para instituições que descumprirem as reservas compulsórias.
Em julho, os preços ao consumidor subiram 19,9%, e a inflação acumulada no ano chegou a 175,5% até julho, conforme dados oficiais compilados pela EFE. Na comparação anual, a alta se aproximou de 580%. O BCV atribuiu parte relevante do avanço mensal aos efeitos dos terremotos de junho sobre a distribuição de mercadorias.
A inflação perdeu força em agosto, mas a moeda continuou sob pressão. O bolívar caiu 5,8% diante do dólar no mercado oficial em agosto, depois de recuar aproximadamente 15% em julho. Desde o início de 2026, o dólar acumulou valorização de mais de 160% na cotação oficial.
Depósitos mais rentáveis e crédito mais caro
A nova regra determina que todos os depósitos bancários sejam remunerados. A taxa mínima anual das contas à vista será de 10%. Para a poupança, o piso sobe de 32% para 42% ao ano. Nos depósitos a prazo, passa de 36% para 46%.
A intenção é estimular a permanência de recursos em bolívares e reduzir a troca da moeda local por dólares ou outros ativos. Ao mesmo tempo, a retirada de dinheiro do sistema e o encarecimento da captação diminuem a capacidade dos bancos de oferecer empréstimos a empresas e consumidores.
“O objetivo é proteger a taxa de câmbio sacrificando ainda mais o crédito, precisamente quando a economia precisa de financiamento”, escreveu o economista venezuelano Asdrúbal Oliveros.
Venda de dólares sustenta o câmbio
O BCV já vendeu cerca de 11 bilhões de dólares no mercado cambial neste ano, segundo a consultoria venezuelana Síntesis Financiera. O volume equivale a cerca de 58% das receitas das exportações de petróleo, de acordo com a mesma consultoria.
A estratégia usa a principal fonte de moeda estrangeira do país para conter uma desvalorização mais rápida, mas reduz a margem para outros gastos públicos em dólares. A Síntesis Financiera estima que as vendas financiadas pelo petróleo cairão 21% em setembro.
O governo precisa equilibrar a oferta de dólares com a expansão dos gastos. Se as despesas aumentarem sem crescimento correspondente das receitas, mais dinheiro poderá circular e elevar a procura pela moeda americana. O BCV tenta se antecipar a esse movimento com o aperto sobre os bancos.
Crescimento em meio à instabilidade
A administração de Delcy Rodríguez afirma que a economia cresceu 7,14% no segundo trimestre, em relação ao mesmo período do ano anterior, e prevê avanço do consumo ao longo de 2026. O país também tenta reconstruir a infraestrutura e responder aos efeitos dos terremotos de junho, que deixaram milhares de mortos e agravaram os problemas de abastecimento.
As autoridades buscam ainda recuperar cerca de 31 toneladas de ouro venezuelano, avaliadas em aproximadamente 4 bilhões de dólares, armazenadas no Banco da Inglaterra. A administração interina de Delcy Rodríguez negocia uma nova relação econômica com Washington e tenta reorganizar as finanças do país.
Para o BCV, menos liquidez e juros maiores podem diminuir a quantidade de bolívares direcionada ao mercado cambial. O custo é a redução do crédito para capital de giro, investimentos, estoques e consumo das famílias. A estratégia depende da combinação entre gastos públicos, receitas do petróleo, oferta de dólares e controle da inflação.








