SÃO PAULO — A abstenção pode crescer nas eleições de 2026 e atingir o maior nível das últimas décadas, avalia o cientista político Jairo Nicolau, professor da Fundação Getúlio Vargas. Ele também prevê aumento dos votos brancos e nulos.
A avaliação ocorre a cerca de uma semana do pleito. Para Nicolau, o eleitorado está desanimado com a repetição da polarização entre petismo e bolsonarismo, o pouco espaço para o debate e a atenção concentrada na crise do Supremo Tribunal Federal (STF).
"Talvez a gente tenha a maior taxa de abstenção nas eleições gerais de 2002 para cá", afirma o professor.
Motivos para não votar
A abstenção recorde no primeiro turno de 2022 chegou a 32 milhões de pessoas. Nicolau ressalta, porém, que nem todos os eleitores que deixam de comparecer tomam uma decisão política deliberada.
Entre os fatores estão o crescimento do número de pessoas com mais de 70 anos, para quem o voto é facultativo, a mudança de cidade sem transferência do título e problemas no dia da votação. Também há eleitores que adoecem ou precisam trabalhar fora de casa.
Na avaliação do cientista político, o custo de não votar diminuiu com a facilidade para justificar a ausência e com as consequências relativamente pequenas do não comparecimento. O e-Título, segundo ele, tornou o procedimento mais simples e contribuiu para uma espécie de voto facultativo na prática.
Nicolau afirma que o cenário eleitoral pode levar parte dos eleitores a ficar em casa ou a votar nulo. Para ele, o voto nulo pode representar uma rejeição mais explícita aos candidatos.
Polarização e desânimo
O professor considera que o mercado eleitoral está concentrado em opções à direita e que falta uma alternativa moderada para eleitores de centro, especialmente os que não querem escolher entre Lula e Bolsonaro ou entre PT e direita.
Ele também identifica um cansaço maior com a política. A propaganda nas ruas teria começado mais tarde que em eleições anteriores, enquanto a crise no STF ocupou parte relevante da campanha e desviou a atenção de temas de políticas públicas.
A alta da abstenção, segundo Nicolau, pode afetar candidatos de maneiras diferentes. Mulheres costumam comparecer mais, o que favoreceria Lula, enquanto pessoas com baixa escolaridade votam menos, o que o prejudicaria. Ainda assim, ele diz não ser possível prever qual grupo será mais afetado antes da eleição.
O cientista político avalia que a abstenção não deve ser considerada decisiva sem saber onde estará concentrada. Ela pode crescer entre grupos diferentes e produzir efeitos opostos. Sua previsão é de alta, mas ele também admite que eleitores podem comparecer em maior número no último momento.









