A Anistia Internacional denunciou que a Rússia atrai estrangeiros com falsas promessas de emprego e os força a lutar na guerra contra a Ucrânia. Entre os atingidos estão cidadãos do Brasil, Colômbia, Cuba, Sri Lanka e África do Sul.
O relatório, divulgado nesta quinta-feira, 10, afirma que os principais alvos são homens com menos de 40 anos, moradores de países mais pobres e interessados em oportunidades de trabalho. Os recrutadores publicariam anúncios na internet para vagas inexistentes ou ofereceriam empregos civis bem remunerados.
Como os brasileiros foram recrutados
Brasileiros entrevistados pela organização relataram que tiveram passaportes e celulares confiscados durante o treinamento ou antes de serem enviados ao front. Outros disseram que foram impedidos de deixar as instalações para onde foram levados depois de assinar documentos e que o transporte ocorreu sob sigilo e controle rigoroso.
Um profissional brasileiro de tecnologia, identificado como Pedro, afirmou ter assinado o que acreditava ser um contrato para trabalhar na área na Rússia. Ao pedir para deixar o Exército, ouviu: “Se você tentar escapar, ou vai para a cadeia ou nós o mataremos”.
A Anistia informou que a falta de experiência militar não impede o recrutamento. A maioria dos alistados seria enviada para zonas de combate ativo depois de apenas duas semanas de treinamento. Os relatos também mencionam preparo insuficiente, falta de equipamentos e dificuldade de comunicação com comandantes por causa de barreiras linguísticas.
A secretária-geral da organização, Agnès Callamard, afirmou que as Forças Armadas russas recrutam estrangeiros em situação econômica vulnerável por meio de coerção, fraude e engano. Ela também disse que passaportes são confiscados e que os recrutas são obrigados a assinar documentos que não compreendem.
Investigação e acusação de tráfico
As entrevistas foram realizadas em dois campos de prisioneiros de guerra ucranianos entre 2024 e 2026. A organização também ouviu estrangeiros que ainda servem nas forças russas, familiares, advogados, ativistas de direitos humanos e jornalistas.
O relatório afirma que estrangeiros em situação irregular na Rússia também são alvo. A eles seriam oferecidos autorização de residência ou passaporte em troca do alistamento. Para Callamard, o esquema envolve deslocamento de pessoas, falsas promessas, violência e exploração, características que podem configurar tráfico de pessoas.
A Anistia pediu à Ucrânia e aos governos dos países atingidos que reúnam provas para processar os responsáveis. A organização estima que mais de 28 mil estrangeiros de 136 países combatiam no Exército russo, conforme estimativa ucraniana feita em abril. A esse grupo se somariam cerca de 14 mil soldados norte-coreanos que lutaram contra as forças de Kiev durante a ofensiva ucraniana em Kursk, em 2024.
As autoridades russas ainda não haviam se manifestado publicamente sobre as acusações. Em ocasiões anteriores, o Kremlin rejeitou alegações de que estrangeiros são obrigados a se alistar no Exército.








