SÃO PAULO — Mensagens contra o voto feminino circulam em podcasts, vídeos e redes sociais no Brasil, com influenciadores relacionando o sufrágio das mulheres a problemas da sociedade e a dificuldades enfrentadas pelos homens. O discurso, antes restrito a nichos da internet, passou a aparecer no debate político brasileiro e em círculos conservadores dos Estados Unidos.
Entre os nomes associados a esse ecossistema estão Renato Amoedo, conhecido como Renato 38ão; Fernanda Guardian; Pietra Bertolazzi; Paulo Figueiredo; Ana Hering e Junior Masters. Parte deles defende a submissão feminina ou questiona o voto individual. Há também mulheres que afirmam que abririam mão do próprio direito de votar.
Renato Amoedo criticou o voto de mulheres não casadas e afirmou que estudo e trabalho não deveriam ser o centro da vida feminina. Ele também relacionou a adoção do voto feminino, em 1932, ao surgimento do Estado do bem-estar social moderno. O influenciador ainda disse não ver problemas em um casamento entre um homem de 50 anos e uma criança de oito, desde que houvesse concordância dos pais e dos envolvidos.
No Redcast, apresentado por Junior Masters, Ana Hering afirmou que o mundo teria começado a desandar quando as mulheres passaram a dar opiniões e a ser ouvidas. Depois, disse que fazia uma piada ao repetir uma fala do apresentador. Em outro trecho, porém, declarou que as mulheres tenderiam a se interessar menos por política e a comprar discursos prontos.
A neurocientista Suzana Herculano-Houzel contestou a ideia de que homens e mulheres tenham perfis cerebrais definidos pelo gênero. Para ela, o cérebro de ambos é essencialmente o mesmo, com diferenças específicas que não explicam comportamentos ou decisões.
Direito constitucional e reação
A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, afirmou que o voto feminino é protegido pela Constituição e que a retirada desse direito não poderia ser discutida por meio de uma lei comum. Segundo ela, a própria tentativa de extingui-lo esbarraria em impedimentos constitucionais.
A historiadora e cientista política Tatiana Vargas-Maia avaliou que questionar o voto das mulheres pode atingir a própria democracia. Para ela, a repetição dessas mensagens pode fazer com que a ideia de uma sociedade sem decisões horizontais seja naturalizada.
Paulo Figueiredo, ligado à família Bolsonaro, afirmou que mulheres votam mal estatisticamente, principalmente as solteiras. Flávio Bolsonaro repudiou a declaração e disse que a direita deveria tentar convencer as mulheres de suas ideias.
Proposta de voto familiar
O chamado Livro Amarelo, ligado ao partido Missão, apresenta a ideia de uma democracia familiar, na qual a família seria a unidade política. O modelo é associado à possibilidade de o homem, considerado chefe da casa, decidir o voto da família.
Renan Santos afirmou que o voto familiar não aparece em seu programa. O partido Missão também declarou que os fascículos têm caráter de manifesto e não constituem uma proposta programática.
Um grupo de deputadas federais pediu à Procuradoria Geral da República que apure se a proposta e as falas de Paulo Figueiredo tentam intimidar mulheres ou deslegitimar sua participação nas eleições.









