SÃO PAULO — A teoria de que Luiz Inácio Lula da Silva morreu e foi substituído por um clone ou sósia voltou a circular nas redes sociais e alcançou 12,5% dos entrevistados em uma pesquisa do Instituto Meio/Ideia divulgada em agosto. O resultado equivale a uma em cada oito pessoas.
A narrativa começou a ganhar força em novembro de 2022, poucos dias depois da eleição presidencial. Postagens questionavam o paradeiro de Lula, enquanto um perfil argentino publicou uma mensagem falsa sobre a morte do então presidente eleito. A ausência dele em um vídeo da transição do governo, liderada pelo vice Geraldo Alckmin, também foi apresentada como suposto indício.
Lula havia viajado para a Bahia com a primeira-dama, Janja. Depois, passou a ser alvo de publicações que afirmavam que ele teria morrido e que um substituto ocuparia seu lugar. As versões falavam em sósias que se revezariam na Presidência, máscara de silicone e até em uma suposta tentativa de evitar sistemas de reconhecimento da íris.
Como a narrativa se espalhou
Um dos canais que impulsionaram a teoria foi o Receitas do Noca, criado por Cláudio de Andrade Antônio. Com mais de 2,3 milhões de inscritos no YouTube, o canal era conhecido por receitas, dicas para a casa, jardinagem e assuntos do cotidiano. Em 2024, passou a publicar vídeos sobre política e conspirações.
Pelo menos oito vídeos relacionados ao tema somam mais de 1,6 milhão de visualizações. Em um conteúdo publicado em 24 de outubro de 2024, Noca mencionou a hipótese de uma rede de clones e apresentou diferenças na aparência, no tom de voz e no jeito de andar de Lula como supostas evidências. Em outro vídeo, publicado no dia 25 de outubro de 2024, reproduziu um áudio atribuído a uma suposta ex-funcionária de hospital.
Para o doutor em Semiótica Paolo Demuru, a mistura de receitas e política facilita a circulação de discursos conspiratórios. A confiança construída com a audiência antes da mudança de conteúdo ajuda a dar credibilidade às novas publicações, segundo ele.
“Parece o meu vizinho de casa, parece o meu tio, meu primo”, afirmou Demuru, autor do livro Políticas do Encanto: Extrema Direita e Fantasias da Conspiração.
Indícios e reaparições
A teoria também se espalhou no TikTok por meio do perfil de David França, que reúne cerca de 89 mil seguidores. Uma publicação feita em agosto de 2026 alcançou 1,2 milhão de visualizações ao afirmar que a pele da mão de Lula se soltava e era recolocada.
A narrativa incorporou acontecimentos reais, como visitas de Lula ao Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, em 12 de novembro de 2022 e no dia 21 daquele mês. Também usou a ausência do presidente em compromissos e imagens de suas mãos para levantar suspeitas.
Uma publicação chegou a afirmar que Lula aparecia com “10 dedos” em uma imagem da COP27. A mão mostrada era a direita, que tem cinco dedos. Lula perdeu o dedo mínimo da mão esquerda em um acidente de trabalho, em 1964. Outros conteúdos manipularam imagens para acrescentar um dedo à mão do presidente.
Desde 2022, a teoria reapareceu após procedimentos médicos, incluindo a cirurgia no quadril, em setembro de 2023, e uma queda, em outubro de 2024. As buscas por “Lula morreu” voltaram a subir nesses períodos e tiveram nova elevação em 2026. Termos como “Lula sósia” e “Lula clone” também aumentaram em junho de 2025.
Demuru afirma que a suspeita leva as pessoas a procurar pequenos detalhes para confirmar uma crença já existente. “A criação de dúvida e da suspeita move o corpo social”, disse. Para ele, esse mecanismo funciona de forma parecida com uma fofoca: depende do compartilhamento, da busca por indícios e da pergunta sobre a possibilidade de a história ser verdadeira.









