Carmen Velasco Portinho (1903-2001) foi uma das pioneiras do feminismo no Brasil e a primeira brasileira a obter o título de urbanista. Sua trajetória combinou a defesa do voto feminino, a valorização do trabalho das mulheres e projetos de habitação popular.
Nascida em Corumbá, hoje Mato Grosso do Sul, Portinho se mudou com a família para o Rio em 1911. Ainda adolescente, aproximou-se do movimento feminista. Ao lado de Bertha Lutz, participou da luta pelo sufrágio feminino, conquistado pelas brasileiras em 1932. Em 1922, as duas fundaram a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino.
Portinho também defendeu o acesso das mulheres à educação e às profissões. Em 1925, formou-se em engenharia na antiga Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, tornando-se a terceira mulher brasileira a concluir esse curso. No ano seguinte, entrou para o quadro de engenheiros da prefeitura do Rio e passou a dar aulas no Colégio Dom Pedro 2º.
Em 1930, criou a União Universitária Feminina, voltada à inserção das mulheres nas profissões liberais. Em 1936, concluiu uma pós-graduação em urbanismo na então Universidade do Distrito Federal. Para obter o título, apresentou um anteprojeto para a futura capital federal, com uma cidade em formato de transatlântico e capacidade prevista para 2 milhões de pessoas.
Urbanismo e habitação popular
Em 1937, Portinho criou a Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas. Depois de uma temporada na Europa em 1945, quando acompanhou trabalhos de reconstrução de cidades afetadas pela Segunda Guerra, passou a defender o urbanismo e a arquitetura como instrumentos de transformação social.
Ela criou e dirigiu o Departamento de Habitação Popular da Prefeitura do Distrito Federal. Também colaborou com o arquiteto Affonso Eduardo Reidy no Conjunto Habitacional Prefeito Mendes de Morais, conhecido como Pedregulho. A proposta incluía escola, posto de saúde e outros serviços reunidos no mesmo espaço.
Especialistas citados no relato associam o projeto a uma visão de cidade que considerava, além do trabalho, as tarefas de cuidado e a rotina familiar. A atuação de Portinho ajudou a consolidar no Brasil a ideia de habitação popular com qualidade arquitetônica e integração social.
A carreira dela no funcionalismo municipal terminou em 1962, quando antecipou a aposentadoria por divergências políticas com o comando da prefeitura do Rio. Portinho ainda foi responsável pela construção do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e dirigiu por 20 anos a Escola Superior de Desenho Industrial, considerada a primeira escola de design da América Latina.
Em 1987, participou da entrega da Carta das Mulheres aos Constituintes, documento com propostas para a Constituição de 1988. Em 2022, foi declarada oficialmente patrona do urbanismo no Brasil.









