SÃO PAULO — Debates eleitorais já tiveram papel importante na forma como os brasileiros avaliavam candidatos e escolhiam seus votos. Ao longo das últimas décadas, confrontos presidenciais e municipais passaram a refletir mudanças na política, na televisão e, mais recentemente, nas redes sociais.
O primeiro caso ocorreu em 1985, quando Fernando Henrique Cardoso disputava a Prefeitura de São Paulo contra Jânio Quadros. Em um debate promovido pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo, Boris Casoy perguntou se FHC acreditava em Deus. O candidato não respondeu diretamente, mas a questão ganhou espaço na reta final da campanha. Jânio venceu por 39,33% a 35,80% dos votos.
Para o analista político Rodrigo Augusto Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e doutor em Sociologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), o episódio mostrou como a religiosidade poderia se tornar um critério de confiança política.
Confrontos presidenciais
Em 1989, ano da primeira eleição direta para presidente desde 1960, Leonel Brizola e Paulo Maluf protagonizaram uma discussão que entrou para o vocabulário político. No debate de 16 de outubro, Brizola chamou Maluf de “filhote da ditadura”. Os dois ficaram fora do segundo turno, e Brizola terminou em terceiro, com 16,51% dos votos, contra 17,19% de Luiz Inácio Lula da Silva.
Também em 1989, o debate entre Fernando Collor de Mello e Lula provocou uma discussão sobre o poder da televisão. A Globo exibiu trechos do confronto no Jornal Nacional, e foi acusada de selecionar os melhores momentos de Collor e os piores de Lula. O PT recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas o pedido foi negado. Collor venceu com 53,03% dos votos válidos, contra 46,97% de Lula.
Em 2022, o confronto entre Padre Kelmon e Soraya Thronicke gerou um dos principais momentos virais da campanha. Depois de questionar a atuação de Kelmon durante a pandemia de covid-19, Thronicke o chamou de “padre de festa junina”. Kelmon terminou a eleição com 0,07% dos votos válidos.
A política como espetáculo
Em 2024, um debate da TV Cultura pela Prefeitura de São Paulo terminou com Datena atingindo Pablo Marçal com uma cadeira. O apresentador foi expulso, enquanto Marçal deixou o local para receber atendimento médico. Marçal ficou em terceiro lugar no primeiro turno, com 28,14% dos votos, 0,93 ponto percentual atrás de Guilherme Boulos.
Na avaliação de Prando, o episódio levou ao limite uma transformação iniciada nos debates anteriores: cenas e falas passaram a ser produzidas para circular como cortes, memes e vídeos curtos. Para ele, o desafio atual é fazer com que os confrontos apresentem projetos e ideias, e não apenas momentos virais.








