A violência voltou à região de Tigray, no norte da Etiópia, quase quatro anos depois do fim de uma guerra que deixou cerca de 600 mil mortos. Forças de Tigray retomaram os confrontos com o governo federal e, desta vez, grupos que antes eram adversários passaram a atuar juntos.
Na quarta-feira (23), forças da região tomaram três aeroportos controlados pelo governo federal. Combates também foram registrados em Amhara e Afar. A Ethiopian Airlines suspendeu os voos para Tigray após a tomada dos aeroportos.
O governo regional de Tigray afirmou que as forças federais iniciaram os ataques e classificou a reação de suas tropas como uma "guerra defensiva". Getachew Reda, assessor do primeiro-ministro Abiy Ahmed, disse que a TPLF lançou uma "ofensiva total" contra posições do governo em Afar e Amhara.
Acordo de paz perdeu força
A escalada rompe o acordo assinado pelo governo federal e pela TPLF em Pretória, na África do Sul, em 2 de novembro de 2022, com mediação da União Africana. O pacto previa o desarmamento das forças de Tigray, o retorno da autoridade federal à região e a retomada da ajuda humanitária e dos serviços básicos.
Disputas territoriais entre Tigray e Amhara e o retorno de pessoas deslocadas permaneceram sem solução. A Eritreia, cujas tropas haviam lutado ao lado das forças federais, não participou do acordo.
O pesquisador de geopolítica etíope Surafel Getahun afirmou que o pacto foi esvaziado ao longo do tempo e atribuiu responsabilidades aos dois lados. Segundo ele, o governo federal não cumpriu pontos como o retorno dos deslocados, enquanto a TPLF retomou o controle da administração regional e reconstruiu suas forças militares.
A TPLF também se dividiu internamente. Facções ligadas a Debretsion Gebremichael e a Reda disputaram o comando do partido e da administração de Tigray. Em abril de 2025, Abiy nomeou um novo líder interino. Um mês depois, a facção de Gebremichael retomou o governo regional.
Nova aliança reúne antigos inimigos
No domingo, a TPLF se uniu a outros seis grupos armados em uma aliança que pretende derrubar o governo de Abiy e formar uma administração de transição. O Movimento Nacional Fano de Amhara, que havia combatido a TPLF ao lado do governo federal, integra o grupo. O Exército de Libertação Oromo, que enfrenta o governo em Oromia, também participa.
Michael Asgedom, porta-voz da TPLF, afirmou que os grupos vão cooperar política e militarmente. Sobre o acordo de Pretória, disse que ele "não era mais válido".
A União Africana declarou que a tomada dos aeroportos é incompatível com o pacto de paz e pediu a redução da tensão. A organização também solicitou a atuação do ex-presidente nigeriano Olusegun Obasanjo, que ajudou a mediar o acordo.
Risco de expansão
A organização ACLED informou que os confrontos entre forças de Tigray e tropas federais começaram perto da fronteira com o Sudão em 1º de agosto, após quase dois meses de choques de menor escala. O monitoramento registrou ataques de drones federais e a movimentação de tanques e artilharia de Tigray para o sul.
A Etiópia já enfrenta conflitos em Amhara e Oromia, enquanto as forças federais estavam sobrecarregadas antes da nova escalada. A capacidade militar dos grupos da aliança varia: alguns têm atuação local e outros não possuem organização ou efetivo para operações de maior alcance.
Também existe o risco de participação das forças da Eritreia. Os países mantêm tensões relacionadas à busca etíope por acesso ao Mar Vermelho, inclusive pelo porto eritreu de Assab. A União Africana pediu aos vizinhos da Etiópia que evitem medidas capazes de alimentar o conflito.
Getahun afirmou que os combates podem superar a dimensão da guerra anterior e defendeu a redução imediata da tensão e o diálogo.








