A eleição presidencial brasileira é vista por analistas como um teste para a estratégia de Donald Trump na América Latina, enquanto os Estados Unidos buscam ampliar sua influência regional. A disputa reúne o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tenta a reeleição e um quarto mandato, e o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Uma vitória de Bolsonaro consolidaria o avanço da direita e reforçaria a influência de Trump no maior país da região. Para o analista político Brian Winter, editor-chefe da revista Americas Quarterly, o Brasil seria “a peça fundamental” da chamada “onda laranja” de líderes alinhados ao presidente americano.
Já uma vitória de Lula fortaleceria o papel do petista como referência histórica da esquerda no Sul Global e poderia criar uma dificuldade inicial para Trump. Winter avalia que a Casa Branca provavelmente reagiria com decepção, mas depois buscaria um entendimento pragmático com o presidente brasileiro.
Pressão americana
Na quinta-feira (1/10), três dias antes do primeiro turno, Trump disse que acompanhava “de perto” a eleição, mas não citou candidatos. Na sexta (2/10), voltou a afirmar que monitorava o pleito quando questionado sobre um possível apoio a Bolsonaro.
As declarações ocorreram enquanto o governo brasileiro demonstrava preocupação com uma eventual interferência americana. Também na sexta, Estados Unidos e Austrália anunciaram o fechamento de embaixadas e consulados no Brasil. O governo americano afirmou que a segurança e a proteção dos cidadãos americanos eram prioridade.
Desde o início do segundo mandato, em janeiro do ano passado, Trump declarou apoio a candidatos de direita em diferentes países. Entre os exemplos citados estão Abelardo De La Espriella, eleito em junho na Colômbia, e Nasry Asfura, vencedor da eleição do ano passado em Honduras.
Na Argentina, a coalizão do presidente Javier Milei venceu as eleições legislativas do ano passado. Trump havia indicado que o auxílio financeiro ao país dependia do resultado nas urnas.
Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador e Peru também elegeram candidatos conservadores em disputas presidenciais recentes. Para Carlos Gustavo Poggio, professor de Relações Internacionais da Berea College, o movimento tem relação menos com ideologia e mais com a insatisfação com os governantes.
Segurança e medidas contra o Brasil
Analistas afirmam que o avanço da direita ocorre junto com uma pressão maior dos Estados Unidos sobre a América Latina. As ações citadas incluem tarifas sobre produtos brasileiros, sanções contra autoridades e a captura de Nicolás Maduro, líder chavista da Venezuela, em janeiro deste ano.
A política externa de Trump e do secretário de Estado Marco Rubio é descrita por Poggio como uma busca por hegemonia nas Américas. Edgar Franco-Vivanco, professor da Universidade de Michigan, afirma que Rubio tenta colocar a América Latina no centro da agenda do governo.
A segurança pública é outro ponto de aproximação entre a estratégia americana e os eleitores da região. O governo dos Estados Unidos criou o Escudo das Américas, voltado à cooperação, à segurança e ao combate ao narcotráfico. O Brasil não participa da iniciativa, mas poderia integrar o grupo sob um eventual governo Bolsonaro.
Os grupos brasileiros Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) foram classificados pelo governo americano como organizações terroristas, apesar da oposição do governo Lula. Políticos de direita alinhados a Trump também defendem maior cooperação com os Estados Unidos na área de segurança, incluindo operações militares conjuntas.
Trump não declarou apoio aberto a nenhum candidato brasileiro. Franco-Vivanco afirma que o governo americano prefere Bolsonaro, por considerá-lo um aliado mais próximo, mas ressalta que não houve apoio direto.
No ano passado, os Estados Unidos adotaram tarifas contra produtos brasileiros e sanções contra autoridades do país, entre elas o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). No fim do ano passado, houve alívio dessas medidas, mas novas tarifas foram impostas neste ano.
Depois de Lula visitar Washington, Flávio Bolsonaro foi recebido por Trump na Casa Branca. A classificação do PCC e do CV como organizações terroristas, defendida por Bolsonaro, foi anunciada logo após a visita.
Para Poggio, as medidas americanas podem ter favorecido Lula mais do que seu adversário. “Qualquer declaração mais forte de Trump, o tiro pode sair pela culatra”, afirmou.









