A Rússia manteve uma colônia permanente na Califórnia entre 1812 e 1842. O Forte Ross, construído no litoral do condado de Sonoma, servia como apoio aos assentamentos russos no Alasca e se tornou um centro de comércio e produção.
Localizado a 145 km ao norte de São Francisco, o forte fica em uma falésia diante do oceano Pacífico. A área preserva uma capela ortodoxa, estruturas de madeira, uma paliçada e outros vestígios da presença russa na região.
Da Sibéria ao litoral californiano
A expansão russa para o leste alcançou o Pacífico na década de 1640, quando mercenários e comerciantes de peles atravessaram a Sibéria. Em 1799, o czar Paulo 1° formalizou a reivindicação do Alasca e criou a Companhia Russo-Americana, responsável pela administração da colônia e pelo comércio de peles.
A dificuldade para cultivar alimentos no território gelado levou os russos a buscar terras mais ao sul. Em abril de 1806, Nikolai Rezanov chegou à baía de São Francisco a bordo do navio Juno. Durante seis semanas, negociou alimentos com os espanhóis e conseguiu abastecer os colonos do Alasca.
Depois da passagem pela Califórnia, Rezanov elaborou um plano para ampliar a presença russa na América do Norte. Em 1812, 25 russos e 80 caçadores nativos do Alasca fundaram o assentamento no litoral de Sonoma.
O local foi projetado em estilo siberiano e construído com sequoias californianas. A posição permitia acesso às áreas de caça de lontras e ficava distante da fronteira espanhola, que tinha pouca vigilância.
Comércio e diversidade
O Forte Ross chegou a reunir cerca de 400 pessoas nos anos 1830. A comunidade incluía russos, crioulos europeus, caçadores das Aleútas e de Kodiak, trabalhadores nativos da Califórnia e pessoas dos povos Kashaya Pomo e Miwok.
O assentamento tinha cerca de 60 construções, além de padarias e banyas, saunas tradicionais russas. A produção incluía navios, tijolos, vidros, moinhos de vento, peças de ferro e objetos de latão.
As mercadorias eram trocadas com espanhóis e, depois, mexicanos por provisões destinadas ao Alasca. De acordo com o arqueólogo Chris Kimsey, os dois impérios dependiam desse comércio, embora estivessem em áreas de fronteira.
Peles de lontra, avaliadas em US$ 100 cada, eram armazenadas no forte antes de seguir para a China, a Europa e a Califórnia espanhola. O assentamento também se tornou um dos principais centros industriais da região.
A presença russa influenciou ainda a agricultura local. Os colonizadores plantaram uvas no atual condado de Sonoma em 1817 e introduziram a variedade Mission. Um pomar criado a partir de um pessegueiro, em 1814, também fazia parte da estrutura da colônia.
Declínio e legado
O forte não conseguiu cumprir os objetivos de gerar lucros e abastecer os assentamentos russos do Alasca. No início dos anos 1820, a caça reduziu fortemente a população de lontras. Entre 1826 e 1833, a produção anual de trigo chegou a apenas 13 toneladas.
Em 1839, a Companhia da Baía de Hudson passou a fornecer provisões para o Alasca russo. Dois anos depois, John Sutter comprou dos russos, por US$ 30 mil, os bens e as construções do Forte Ross. Parte das estruturas foi aproveitada em um assentamento em Sacramento.
Atualmente, o Parque Histórico Estadual do Forte Ross ocupa quase 1,4 mil hectares. O terremoto que atingiu São Francisco em 1906 derrubou grande parte do forte original, mas algumas construções foram reconstruídas.
Outras marcas da presença russa permanecem na Califórnia. O bairro Russian Hill, em São Francisco, recebeu esse nome após a descoberta de túmulos de marinheiros da Companhia Russo-Americana. O rio Russo, chamado de Slavyanka pelos colonizadores, também preserva essa ligação histórica.









