RIO DE JANEIRO — A parceria entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes começou com a estreia de Orfeu da Conceição, em 25 de setembro de 1956, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. A peça musical tinha texto do poeta e diplomata e trilha de Antônio Carlos Jobim, então um pianista em início de carreira.
O jornalista Lúcio Rangel apresentou os dois. A montagem transpôs para uma favela carioca o mito grego de Orfeu e teve cenografia de Oscar Niemeyer. O elenco era do Teatro Experimental do Negro, companhia ligada ao dramaturgo e ativista Abdias Nascimento. Foi a segunda vez que artistas negros ocuparam os palcos de um dos principais teatros brasileiros.
Para o jornalista e crítico musical Leonardo Lichote, o encontro abriu caminhos para a música popular brasileira. O músico Bruno Leo Ribeiro define a parceria como “a consolidação oficial do que conhecemos como bossa nova”. A colaboração também mudou a abordagem das letras, que passaram a explorar a beleza do cotidiano, além de temas como sofrimento e drama.
Da peça à bossa nova
No mesmo ano da estreia, a Odeon lançou um LP homônimo, considerado o primeiro álbum da parceria. Entre as faixas estava Se Todos Fossem Iguais a Você. Em 1959, o álbum Chega de Saudade, de João Gilberto, trouxe duas composições de Jobim e Vinicius, incluindo a música que dá nome ao disco.
A dupla participou da formação da bossa nova: Vinicius contribuiu principalmente com as letras, enquanto Tom desenvolveu procedimentos harmônicos e melódicos. João Gilberto deu forma final à proposta por meio do violão. A influência alcançou compositores como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Em 1962, Jobim e Vinicius compuseram Garota de Ipanema, descrita no texto como a música brasileira mais conhecida, mais gravada e mais tocada no planeta. A canção ajudou a projetar internacionalmente a produção dos dois.
Filme e reconhecimento
A parceria também chegou ao cinema. Em 1959, o cineasta francês Marcel Camus transformou a peça em filme, rodado no Rio. Vinicius havia vendido os direitos do texto ao produtor Sacha Gordine antes da encenação e usou o dinheiro para financiar a montagem teatral.
Chamado de Orfeu Negro, o filme venceu o prêmio de melhor filme estrangeiro no Oscar e foi premiado em Cannes. Em 1999, Cacá Diegues dirigiu outro longa baseado na obra, chamado Orfeu.
A peça voltou aos palcos em 2010, sob direção de Aderbal Freire Filho. Ao analisar a obra, Leonardo Lichote também apontou tensões na representação da população negra e da favela, observando que a montagem valorizava esses espaços, mas podia romantizá-los sob a perspectiva de um intelectual branco daquele período.









