A crise entre Brasil e Estados Unidos ocorre em meio a uma reformulação da diplomacia americana no segundo mandato de Donald Trump, iniciado em 20 de janeiro de 2025. A política externa do governo é descrita por analistas como transacional, com foco em ganhos imediatos para os Estados Unidos e uso de tarifas e pressão sobre assuntos internos de outros países.
A tensão com o Brasil se agravou em agosto, após a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. O governo americano também impôs novas tarifas sobre produtos brasileiros, aplicou sanções contra autoridades e designou o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas.
Mudanças no Departamento de Estado
A American Foreign Service Association (AFSA), que representa diplomatas de carreira da ativa e aposentados, calcula que cerca de 3 mil integrantes tenham pedido demissão, se aposentado ou sido obrigados a deixar o cargo nos últimos 18 meses. O quadro total é de 14 mil diplomatas.
A associação afirma que a saída em grande escala afasta profissionais com experiência em negociações, idiomas e diferentes áreas da política externa. O porta-voz do Departamento de Estado, Tommy Pigott, diz que a redução faz parte de uma reestruturação histórica e foi conduzida em conformidade com os requisitos legais.
Segundo Pigott, as mudanças pretendem estabelecer uma diplomacia mais eficiente, ágil e alinhada ao princípio America First, lema adotado por Trump. A AFSA, porém, vê uma tentativa de politizar o serviço diplomático, tradicionalmente apresentado como apartidário.
Até 10 de agosto, dados da associação indicavam que Trump havia nomeado 113 embaixadores. Apenas 20 eram diplomatas de carreira. O percentual, inferior a 18%, é o menor da história recente dos Estados Unidos. Em governos anteriores desde Gerald Ford, incluindo o primeiro mandato de Trump, a proporção havia ficado em cerca de 60% ou mais.
Posto em Brasília e crise bilateral
Dos 196 postos de embaixador dos Estados Unidos, 97 continuavam sem titular confirmado. No mesmo ponto do governo de Joe Biden, havia 55 postos nessa situação. O processo exige indicação presidencial e aprovação do Senado, embora alguns cargos ainda estejam em tramitação e outros nem sequer tenham candidato.
Brasília está sem embaixador desde a saída de Elizabeth Bagley, indicada por Biden. Em junho, a Casa Branca indicou Daniel Perez, deputado estadual da Flórida pelo Partido Republicano, para comandar a embaixada. O Senado aprovou o nome no início de agosto, mas ele ainda depende do agrément, aval do governo brasileiro.
O pedido americano foi feito depois da divulgação da indicação e do envio do nome ao Senado. Fontes diplomáticas relacionam a revogação do visto de Viotti à insatisfação dos Estados Unidos com a demora brasileira para conceder o aval a Perez. A recusa de vistos a dois funcionários do Departamento de Estado que pretendiam viajar ao Brasil também teria pesado na decisão.
O Planalto afirmou que não existe prazo definido na Convenção de Viena para a concessão do agrément e que o pedido ainda está em análise. O governo brasileiro também disse que os funcionários americanos planejavam questionar a integridade do sistema eleitoral, acusação negada pelos Estados Unidos.
Em 13 de agosto, o Brasil anunciou a abertura de um processo de reciprocidade relacionado às tarifas americanas. Viotti continua autorizada a atuar em Washington, mas precisaria de um novo visto caso deixasse os Estados Unidos e tentasse retornar.
O diplomata aposentado Ricardo Zúniga classificou o episódio como um problema de procedimento diplomático. Ele também avalia que a política para o Brasil está sob influência de um grupo ideológico ligado à direita e liderado pelo secretário de Estado, Marco Rubio.
Lealdade política
A reestruturação inclui demissões, fusões e dissoluções de unidades do Departamento de Estado. Em meados de agosto, o órgão informou que encerrou a agenda de diversidade, equidade e inclusão, chamada de DEI, que estaria associada ao governo anterior.
Diplomatas aposentados afirmam que profissionais de carreira vêm sendo substituídos, em alguns casos, por pessoas com pouca experiência e forte lealdade ao presidente. Pigott respondeu que Rubio valoriza opiniões de americanos patriotas e que não serão toleradas ações para enfraquecer os objetivos do presidente eleito.
Trump também tem recorrido a pessoas de confiança em negociações sobre conflitos na Ucrânia e no Irã. Entre elas estão Jared Kushner, seu genro, e Steve Witkoff, empresário e enviado especial dos Estados Unidos ao Oriente Médio.
Para diplomatas estrangeiros em Washington, a mudança dificulta identificar quais decisões representam uma política de Estado e quais partem de um grupo restrito com acesso direto ao presidente.









